quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Avatar

Bom, o post de hoje é uma idéia apropriada do blog do meu amigo Jairo, da Folha de São Paulo. O barato é o seguinte: essa semana estréia aqui no Brasil o filme Avatar, um longa de ficção que conta a história de uns "serumanos" que entram em guerra com os alienígenas para explorar um mineral raro encontrado no planeta deles.
Mas o que isso tem a ver com o blog? É que o protagonista do filme, Jake, interpretado pelo ator Sam Worthingon, é um soldado veterano que ficou cadeirante (acho que ele virou "malacabado" em alguma guerra). Eu já vi o trailer nas "própria" internet e no cinema, e achei muuuuuuuuuuito bem feito. E, como todo cinéfilo que se preza, não vou perder de jeito nenhum.
Saca só:

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Força, Luciana!




"Tecnicamente ele está tetraplégico, eu acho que ele vai mexer os braços, mas não vai conseguir sentar direito."

Até hoje meus pais me contam. Foram essas as palavras que eles ouviram do neurocirurgião que fez a fixação das minhas vértebras, fraturadas no acidente. Mas o meu ponto aqui não é me fazer de coitado, muito menos de herói, e sim afirmar que não devemos tomar certas declarações como sentenças definitivas. A personagem de Alinne Moraes vem passando por situação parecida na novela e isso me faz lembrar de tudo que passei.
Venho me surpreendendo com a veracidade com que a novela está retratando a situação de Luciana, a única ressalva que faço é a velocidade dos progressos que ela vem alcançando na reabilitação. Na realidade as coisas acontecem bem mais devagar, mas é compreensível, dado o tempo que a novela tem pra ficar no ar.
Retomando o meu ponto: quero insistir que temos que lutar por aquilo que acreditamos. Em aproximadamente três anos e meio de luta constante, consegui muito mais do que as previsões iniciais apontavam, e quero mais. Se eu não acreditar quem vai fazer isso por mim? O vídeo a seguir é uma demonstração do que acabei de dizer, resultado de toda essa insistência.



Caminhar ainda é difícil, demanda muito esforço e não é meu meio de locomoção mais eficiente, por isso minha rotina ainda é a cadeira de rodas e o treino de marcha é apenas um exercício. Além da limitação motora, ainda convivo com todos os problemas que a lesão acarreta e que todo lesado conhece bem. Mas não vou me alongar mais, já provei o meu ponto, apesar do prognóstico pessimista eu consegui chegar até aí. E que muito mais!
Força pra todas as Lucianas e Lucianos que estão passando por situação parecida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Top 10 | 3M - Concurso Imprima Seu Estilo

Concurso da 3M, um amigão tá concorrendo! Votem lá em Maka a.k.a. iskor!

Top 10 | 3M - Concurso Imprima Seu Estilo

Insuportável






Hoje eu estou insuportável! Nem eu mesmo aguento a minha soberba. Tudo isso porque sou hexacampeão!
Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ôôô! Mengão do meu coração!
É ou não é, Ivete?

Saudações Flamenguistas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Fantástico

Segunda feira, quando eu estava na academia (sim, aleijado também malha), Junior, o instrutor, perguntou se eu tinha visto a matéria sobre tetraplegia no Fantástico e recomendou que eu visse. A matéria contava duas histórias (da Camila e da Kristie), ambas receberam diagnóstico de tetraplegia e conseguiram recuperações surpreendentes, no caso da Kristie uma recuperação quase completa. Mas o que me chamou mais atenção foi uma declaração dela, com a qual eu me identifiquei muito:
“Uma das coisas mais frustrantes de quando você fica preso numa cadeira de rodas é que tudo é lento, tudo é devagar. Então só o fato de você estar em velocidade em cima de um cavalo, ter o vento no rosto, o cabelo voando, então isso triplica a intensidade desse bem-estar para uma pessoa que já ficou presa numa cadeira de rodas do que para outra”
Hoje Kristie joga pólo, daí a declaração a respeito do cavalo. É a mais pura verdade, quando você está numa cadeira de rodas tudo é mais demorado, até o simples ato de vestir a roupa se torna uma tarefa demorada. Todo dia quando acordo, eu olho a cadeira ao lado da cama e tenho que encontrar motivação pra levantar da cama e começar o meu dia, isso se repete há mais de três anos. Mas por quê?
Porque eu já sei como o dia vai começar, a briga com a espaticidade (que pela manhã está muito forte), a dificuldade e a demora pra tomar banho, pra me enxugar, o tempo que eu levo pra fazer o cateterismo... É toda uma programação que ninguém conhece, mas todo lesado medular enfrenta diariamente. Pra vocês terem uma idéia, eu tenho que acordar duas horas antes de sair de casa pra conseguir fazer tudo isso e tomar café da manhã com tranquilidade.
Dá pra ter uma idéia do drama? Por isso eu fico puto toda vez que a minha mãe fala que eu demoro muito pra tomar banho, me vestir, etc. Acabou aquela moleza de alguém me ligar e dizer: "Vamo pra não sei onde? Passo aí em meia hora pra te pegar." Já era papito! E não é porque eu fico escolhendo a roupa mais apropriada pra situação ou penteando os cabelos que teimam em continuar na minha cabeça. Não, é porque a lesão não me permite!
Sabe que às vezes até desisto de sair com preguiça de passar por esse processo todo? Mas não é má vontade, é que agora meus braços têm que dar conta do trabalho do corpo inteiro e isso cansa, sobrecarrega... e demora. Portanto, tenham mais paciência com seus aleijados queridos!

Pra quem tiver curiosidade:

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Basquete em cadeira de rodas

Bom, já comentei aqui mesmo no blog a respeito da Federação Sergipana de Esportes Adaptados, um entidade que eu e um amigo criamos pra fomentar a prática dos esportes adaptados no estado, já falei também que treino basquete em cadeira de rodas no único time que temos aqui em Sergipe. Logo que eu conheci o pessoal, em abril de 2009, viajei com eles pra o campeonato regional que ia ter em João Pessoa, na ocasião eu ainda nem treinava, fui apenas pra conhecer o esquema. Diel, o idealizador do grupo, tinha a idéia de fazer um vídeo promocional pra ajudar a conseguir apoio e me perguntou se eu não podia ajudar. Peguei emprestada a câmera do meu irmão, o pouco conhecimento que eu tinha de edição de vídeo e tentei fazer o filme. O resultado vocês vêem a seguir, são depoimentos, cenas dos jogos e momentos marcantes (dividi o filme em duas partes, que no total têm aproximadamente 15 minutos). Aguardo os comentários. Abraços!

Seleção Sergipana de Basquete em Cadeira de Rodas - parte 1





Seleção Sergipana de Basquete em Cadeira de Rodas - parte 2




terça-feira, 17 de novembro de 2009

A Fantástica Fábrica de Biscoitos.

Bom, nesse fim de semana tive mais uma aula do meu MBA. Digo, fizemos uma pequena excursão. Como a aula era de logística, o professor resolveu nos levar à fábrica da Mabel (os biscoitos) pra que pudéssemos conhecer e fazer uma análise dos processos. Dito isso, vamos ao que interessa. Lá vou eu de carro para o lugar combinado, estaciono, tiro e monto a cadeira  e sigo para encontrar o pessoal e ir para o ônibus (era aqui que eu queria chegar). Como a fábrica fica em outro município, esse foi o meio escolhido.
Eu já sabia que iríamos de busão, portanto já esperava pelo sufoco. Como a grande maioria dos ônibus não são adaptados eu já sabia que teria que passar por isso. Então, lá vai o aleijado sendo carregado por dois coleguinhas até a poltrona na primeira fila. O problema é que não é nada agradável ser carregado, além de não ser muito seguro, especialmente subindo a escada de um ônibus.
Chegando na Mabel fui mais uma vez carregado pra fora do ônibus e colocado sentadinho na minha cadeira. O passeio deveria começar com a exibição de um vídeo institucional, que aconteceria em uma sala no primeiro andar, mas eis que para a minha "surpresa"... advinha! Não tinha elevador, é claro. Vídeo cancelado, ninguém pôde ver o filme por causa do estropiado aqui (ou seria por causa dos responsáveis pela fábrica, que não pensaram na acessibilidade?). Tudo bem, meus coleguinhas são legais e não se incomodaram.
Passeamos pela fábrica, vimos os biscoitos passeando pela esteira, fizemos piadas sobre as rosquinhas (sim, um dos produtos mais conhecidos da Mabel são as rosquinhas),  piadas do tipo: "Tio, fiquei sabendo que semana passada um funcionário foi demitido por queimar a rosca. É verdade?". Enfim, aprendemos brincando. O restante do passeio se deu sem maiores problemas de acessibilidade, mas como meu amigo Messias foi de carro pra lá, decidi voltar com ele pra não precisar ser carregado de novo. Essa é a minha história, comédias da vida aleijada (em homenagem ao blog da minha amiga Ju).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mais um depoimento

Bem, já falei que não sou um grande espectador de novelas, mas os depoimentos de Viver a Vida não podem ser ignorados aqui no blog, principalmente quando é um com que eu me identifico por ter alguma coisa a ver com o nosso assunto aqui. Esse é o depoimento da Camila Lima, que teve uma lesão em C6/C7, na coluna cervical, assim como eu, e também foi diagnosticada como tetraplégica, mas recuperou os movimentos dos braços e vem conseguindo muitas coisas ao longo desses anos (igual a alguém que eu conheço :) ). É isso aí, força Camila!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Muito inteligente.

Com a colaboração da minha leitora (muito chique, hein?) Silvia Gomes, que tirou essas fotos no aeroporto de Guarulhos e lembrou do blog. Vê se pode? Os caras colocam duas rampas super bem feitas e, entre as duas, uma corrente, impedindo o estropiado de passar. Olha lá!




domingo, 8 de novembro de 2009

SMS

Ontem cheguei em casa 3:00 da manhã, fui pra o Subúrbia, um lugar legal aqui em Aracaju onde tocam algumas bandas de pop rock. O lugar foi reformado há pouco e está bem acessível, a exceção é a rua na frente que é bem ruim. Bom, fiquei lá conversando com meu irmão e duas amigas, Chris e Íris, por um bom tempo e ouvindo uma das bandas tocar. Mas depois comecei a ficar um pouco triste, chateado com a situação, sabe? Eu tava frustrado com as situações que a lesão me impõe. Na maioria das vezes eu resisto em sair de casa e ir pra esses lugares porque sempre é um pouco frustrante lembrar como as coisas eram antes e como são agora, mas vocês sabem como é... Mesmo assim é preciso sair um pouco pra distrair, então eu insisto.
Resumindo... Resolvi voltar pra casa por volta de 2:30 da manhã. Triste, frustrado, precisando desabafar. Como não gosto de conversar muito decidi mandar um SMS pra Andréa, minha namorada. Era só um jeito de colocar pra fora o que eu estava sentindo:

"Voltei. É estranho como eu tento aproveitar esses momentos, mas por mais q eu tente eles são sempre frustrantes. Não consigo aproveitar essas saídas da mesma forma q antes do acidente, eu quero, mas n consigo. É mto ruim ter q tomar umas cervejas com um saco enchendo de xixi amarrado na perna pq vc n consegue parar de mijar, é ruim ter q ficar sentado num lugar q tá todo mundo de pé e pulando. Não sei..."


Ela acordou e me ligou, mas expliquei que preferia não conversar, foi só uma maneira de desabafar. Eu só queria mesmo ter uma vida normal, não é querer muito. Mas fui dormir e acordei pra um novo dia.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Socorro! Estão querendo me catequizar!

Sabe quando a gente estudava História do Brasil e aprendíamos sobre as missões de jesuítas que vinham ao Brasil catequizar os índios? Às vezes eu me sinto como um desses índios. Fim de semana passado, um dos meus colegas da pós começou a me fazer um monte de perguntas na hora do almoço. Perguntas sobre o acidente, sobre a lesão, como eu me sentia em relação a tudo aquilo, etc. Até que ele comentou algo do tipo: "Mas eu nunca vi você falando que tinha fé em Deus que ia conseguir se recuperar". Daí em diante vocês já sabem onde a conversa foi parar, não é?
Esse tipo de coisa já aconteceu comigo várias vezes. Um dia eu estava saindo do prédio onde tinha me consultado no otorrino e uma moça me viu na cadeira de rodas e soltou: "O que aconteceu com esse menino bonito?". Depois de algumas perguntas ela pediu pra orar por mim e eu, inocentemente, aceitei. Ela botou a mão na minha cabeça, disparou numa oração em voz alta e todo mundo parou pra assistir a cena. Imaginou a cara do aleijado morrendo de vergonha? Minha mãe jura que aquilo foi um sinal dos céus, eu sou mais cético.
Por que será que as pessoas não resistem e sempre tentam catequizar os cadeirantes? Respeito a crença de todo mundo, mas não gosto que as pessoas tentem me impor a sua. O que aconteceu comigo é uma circunstância da vida e pode acontecer com qualquer um, a qualquer hora. Eu acredito SIM na minha recuperação, mas não acho que as coisas são desse jeito, que milagres acontecem como mágica e paraplégicos levantam de suas cadeiras de uma hora pra outra. Infelizmente não é assim que acontece. Gostaria que fosse.
Eu estou tentando conviver da melhor forma possível com a minha deficiência e todo mundo tem o direito de discordar, mas é assim que eu vejo as coisas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Viver a Vida

Não sou um grande espectador de novelas, nem gosto muito, mas como bom publicitário, assisto de vez em quando pra ficar a par do que acontece. E ontem, me deparei com o depoimento do João Carlos Pecci, no fim da novela "Viver a Vida". Eu já tinha lido um dos livros dele, o "Minha Profissão é Andar" (eu recomendo), e não posso deixar de elogiar também o depoimento. Ele sofreu um acidente e ficou tetraplégico aos 26 anos, mas com uma dedicação absoluta à fisioterapia conseguiu se tornar paraplégico. Uma situação bem parecida com a minha, que tive uma lesão bem alta na medula e também recuperei os movimentos dos braços e até algum controle das pernas.

Quem puder assistir, vale a pena:

Boa notícia

O convívio com a lesão medular é muito difícil, é duro acordar todo dia com a incerteza a respeito da recuperação. A única coisa que podemos fazer é tentar conviver da melhor forma possível com a situação, da forma como ela se apresenta. Eu tento fazer isso, mas as vezes perco a paciência. No entanto, de vez em quando nos deparamos com boas notícias, e estas renovam as esperanças. Hoje dei de cara com uma matéria da Folha de São Paulo que indica mais um avanço nas pesquisas em relação à lesão medular. A matéria, intitulada "Antidepressivo ajuda a recuperar lesão de medula", não aponta pra uma cura definitiva, mas é mais um indicativo que estamos no caminho certo.
Como bom menino que sou, resolvi facilitar a vida de vocês e colocar a matéria aqui. Quem tiver curiosidade, fique à vontade.



Antidepressivo ajuda a recuperar lesão de medula, mostra estudo

CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo



Um antidepressivo comum associado a um programa intensivo de treinamento em esteira pode ajudar pessoas com lesões parciais da medula espinhal a andar mais rapidamente e com mais desenvoltura, revela uma pesquisa inédita apresentada anteontem em congresso de neurociência que acontece em Chicago (EUA).
Os antidepressivos são usados para tratar dor crônica de lesionados na medula, mas é a primeira vez que um estudo com humanos mostra benefícios na recuperação motora.
Segundo os autores, o uso de um antidepressivo inibidor da recaptação de serotonina ajudou a fortalecer as conexões nervosas remanescentes da coluna, dando aos pacientes mais capacidade de controlar os músculos das pernas.
"A droga por si só não é milagrosa. Você precisa é da droga mais o treinamento", explica o médico George Hornby, professor do Instituto de Reabilitação de Chicago e um dos autores do estudo.
Segundo Hornby, foram testados os efeitos do antidepressivo em 50 pessoas que tinham capacidade parcial para mover-se, um ano após terem sofrido uma lesão da medula espinhal.
Durante oito semanas, os pacientes participaram de um treinamento em uma esteira motorizada, assistido por um robô ou por um fisioterapeuta. Eles tiveram o apoio de um suporte para não cair.
Cinco horas antes do treino, metade do grupo recebeu 10 mg de antidepressivo e a outra metade, placebo. Ambos os grupos melhoraram, mas aqueles que tomaram o remédio foram capazes de andar muito mais rápido, de acordo com Hornby.
Ele diz que a droga aumentou os espasmos musculares nos pacientes e que esses reflexos podem ser treinados. "Os pacientes que têm uma lesão da medula espinhal podem invocar esses reflexos para andar."
Os voluntários só tomaram o antidepressivo no dia do treinamento, mas os benefícios permaneceram mesmo depois que os efeitos da droga haviam passado, afirma o pesquisador.
Qualidade de vida
Segundo o médico Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, titular de ortopedia da USP e especialista em lesão medular, os resultados da pesquisa são "muito positivos", mas são necessários estudos maiores para que o tratamento seja incluído na prática clínica. "Está bem longe da cura, mas pode melhorar a qualidade de vida desses pacientes", diz ele.
Barros Filho explica que as pesquisas em animais já haviam demonstrado que o antidepressivo pode melhorar o tratamento de lesionados da medula porque facilitam a transmissão dos impulsos nervosos na coluna. "É uma peça a mais nesse gigantesco quebra-cabeça [que é a medula]."
De acordo com o neurologista Jaderson da Costa, coordenador do projeto e diretor do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, o antidepressivo age aumentando a disponibilidade de serotonina em pacientes que ainda têm um substrato neural na medula (lesão parcial) e isso pode ajudar na recuperação motora.
Ele lembra que esse tipo de droga também pode melhorar a disponibilidade afetiva, o que faz com que os pacientes se engajem em um programa de treinamento com mais facilidade. "O cérebro ajuda o cérebro."
O médico Cícero Vaz, fisiatra do Hospital Israelita Albert Einstein, avalia que mais estudos serão necessários para comprovar se o benefício apontado pelo estudo é neurofisiológico (pela ação da serotonina nos impulsos nervosos) ou emocional. "Esse tipo de paciente tende à depressão. Será que, ao melhorar, não há mais aderência ao tratamento?"

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Madrugada


Já é madrugada e eu estou sem sono. Todo mundo em casa já está dormindo e eu estou aqui sozinho com minhas dúvidas. Hoje eu fui jantar com uns amigos: Felippe (um amigão de longa data, acompanhado da namorada) e Paloma (amiga querida já há muitos anos). Conversa vai e conversa vem, rimos bastante, contando histórias novas e relembrando antigas. Sempre que isso acontece me vem à cabeça os velhos tempos (pré-lesão medular) e isso me traz boas lembranças, mas com elas também várias incertezas e a saudade de momentos que talvez eu não tenha de novo.
Como será minha vida daqui pra frente? Toda a minha luta é pra abandonar de uma vez por todas a cadeira de rodas, deixá-la pra traz definitivamente, mas por mais que eu insista na certeza de que isso vai acontecer, as dúvidas me perseguem. A fisioterapia, minha principal atividade nos últimos três anos, já se tornou quase insuportável, eu tento, mas não consigo mais encará-la de forma tranquila, acho que cheguei no meu limite. Amanhã ela começaria às 8 horas, mas eu não vou conseguir. Na verdade estou pensando em parar, pelo menos por um tempo. Eu queria parar definitivamente, mas, por mais que eu negue, a fisioterapia é necessária se eu almejo uma recuperação completa um dia. Preciso manter o alongamento dos meus músculos, mantê-los o mais ativos possível, nosso corpo funciona baseado na regra do uso e desuso. E o desuso é fatal.
O problema é que não consigo mais viver num eterno tratamento de saúde, insistir na fisioterapia sem trégua e sem conseguir o retorno almejado. Preciso de um tempo, vou parar e repensar os rumos da minha vida, investir o tempo livre em outras atividades que me tragam mais prazer e me façam descobrir cada vez mais coisas pelas quais vale a pena seguir em frente. Vou dar um tempo, pelo menos por alguns meses.
A vida continua e eu continuo saudoso dos velhos tempos, daqueles dias em que eu acordava, levantava da cama sem esforço e ia tomar um banho pra começar mais um dia, quando eu comandava e o meu corpo obedecia. Eu continuo acreditando, sigo cheio de expectativas, às vezes desanimo, mas não posso parar. Essa parada na fisioterapia é apenas uma pausa, vou recarregar as baterias pra poder recomeçar mais forte, sempre em busca do meu objetivo. O que eu não posso é deixar de acreditar. Já passam das 3 da manhã, agora preciso dormir.

sábado, 26 de setembro de 2009

FSEA


Pessoal, tenho uma novidade. Ainda não tive a oportunidade de comentar aqui no blog, mas há alguns meses, dei início a um projeto: FSEA - Federação Sergipana de Esportes Adaptados. Tudo partiu da iniciativa de um amigo meu, o Halyson, que perdeu a perna em um acidente de trabalho numa mina da Vale, cerca de dois anos depois do meu acidente.
Enfim, o cara teve a idéia de criar uma associação com objetivo de fomentar a prática esportiva entre os portadores de deficiência e, sabendo da idéia, comecei a ajudá-lo. Corremos atrás do necessário, entramos em contato com a Secretaria de Esporte e Lazer de Sergipe e, depois de muita insistência, muita espera, conseguimos uma sala no complexo esportivo do Batistão pra ser a sede da Federação. Pra quem não conhece Aracaju, o Batistão é o estádio estadual de futebol daqui e lá dentro existem algumas salas onde funcionam algumas instituições.
Bom, segunda-feira pela manhã eu vou lá com ele receber (ou pelo menos tentar) a chave da sala pra começar os trabalhos. Já fiquei sabendo que a sala tá uma bagunça, cheia de entulho, precisando de uma pintura e de serviços na instalação elétrica. Mas isso é o de menos, o mais difícil nós já conseguimos. A pintura e a instalação elétrica vão ficar por conta da Secretaria, isso já nos foi garantido pelo secretário em pessoa, mas eu espero que não demore. Sabe como são essas coisas de política né? Esperamos meses pra receber a sala que já tinha sido prometida, agora vamos ver se não demora tanto pra tê-la em condições, digamos... habitáveis.
É ou não é uma boa notícia? Nós temos várias idéias, vários projetos em mente pra desenvolver e colocar esse povo sem braço, sem perna, de cadeira de rodas, muleta, que não enxerga ou não ouve... pra se movimentar. Sei que não vai ser fácil colocá-los em prática, mas tudo parte de uma idéia, né não? Assim como conseguimos criar a federação, agora vamos correr atrás do governo e da iniciativa privada pra apoiar essa causa nobre.
Estou juntando material de escritório e se alguém aí tiver alguma coisa que possa ajudar (um bureau, cadeiras, sofá, mesa, computador, etc) é só dar um alô aqui pelo blog que eu vou agradecer muito. Bem pessoal é isso. O que vocês acham?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Viagem

Segunda-feira cheguei de viagem. Fui à Campina Grande-PB visitar a muié. Ainda não comentei sobre a minha namorada aqui no blog, o nome dela é Andréa, e sim, nós namoramos à distância. Não satisfeito com todas as dificuldades que a lesão impõe, ainda arrumei um namoro a distância. Complicado né? Mas não tem problema, ela tem feito valer a pena.

Vamos falar da viagem, que é o que interessa. Viajar é sempre uma missão complicada pra um aleijado, seja qual for o meio de transporte (dessa vez fui de avião). Aqui em Aracaju os problemas começam ainda no aeroporto, onde a estrutura não ajuda. Pra começar o aeroporto daqui não dispõe dos fingers (aqueles túneis que nos levam da sala de embarque direto pra o avião), o jeito então é ser carregado. Imaginou a cena? Lá vai o malacabado sendo carregado escada acima por dois marmanjos, correndo o risco de cair e ficar ainda mais estropiado. Mas, se não tem outro jeito... O avião já é um problema em si. Apertado e de difícil acesso, a cadeira sequer chega na primeira fileira de poltronas, na maioria dos modelos. E o mamulengo é carregado de novo e colocado na poltrona. Muito agradável!

É a terceira vez que vou visitr Andréa em pouco mais de sete meses de namoro e quando estou lá me hospedo no apartamento da avó dela, que não mora na cidade. Detalhe: o apartamento não é adaptado. Imaginou a cena de novo? Lá vai o aleijado tentando entrar no banheiro, mas a cadeira não passa na porta. A solução é montar a cadeira de banho dentro do banheiro e fazer um malabarismo, trazê-la pra perto da porta e passar da minha cadeira (que está do lado de fora) diretamente para a que está dentro. Espetáculo digno do Cirque du Soleil!

Campina Grande é uma cidade do interior (apesar dos habitantes não gostarem de admitir kkkkkk!) e, como tal, não está preparada pra receber os estropiados. Mas isso não é uma realidade exclusiva de lá, acontece na maioria dos lugares. Enfim, as dificuldades continuam pra ir pra qualquer lugar, os mesmos problemas de sempre.

Tudo isso sem contar com os olhares de estranhamento das pessoas. Olhares do tipo: "Aquela menina namora com aquele aleijado?". Faz parte, já estou acostumado e, na verdade, isso nunca me incomodou. Essa parte eu tiro de letra!

Fora isso foi tudo bem, já estou acostumado com as dificuldades e já saio de casa sabendo o que esperar. Claro que tudo isso enche o saco e às vezes até desanima de sair de casa, mas se a gente não enfrentar vai viver trancado a vida inteira, sem botar a cara na rua. Eu poderia listar uma série de dificuldades que enfrentei lá e em outras viagens, mas ao longo do tempo (e das novas aventuras) vou contando pra vocês.

Como diria o Pernalonga: That's all folks! Um abraço e até breve.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O menor dos meus problemas.

Quando a gente pensa em paraplegia ou tetraplegia, a primeira coisa que vem à mente é a falta de movimentos, ou seja, que aquela pessoa não vai mais andar. Mas, de todos os inconvenientes que a lesão medular acarreta, talvez esse seja o mais fácil de conviver. Claro que deixar de andar é muito ruim, um fator extremamente limitante, mas se tem uma coisa que esses três anos me ensinaram é que existem problemas ainda maiores.
Pra quem não sabe, a lesão medular afeta todas as funções que estão localizadas abaixo dela, e quanto mais alta a lesão, mais limitante ela pode ser. Além dos movimentos, a lesão prejudica uma série de funções controladas pelo nosso cérebro, entre elas o controle da bexiga e do intestino. Se não fosse por cagar e mijar na hora errada, a vida do lesado medular seria bem mais tranqüila.
Pior que não conseguir andar, é a iminência de urinar ou defecar na hora errada, e a adaptação à nova realidade requer paciência, disciplina e planejamento. É um baita impacto na qualidade de vida, mas é preciso reaprender a conviver com o corpo pra poder retomar o convívio social. Existem uma série de adaptações pra tornar essa convivência, digamos, mais tranqüila, mas nada que resolva o problema.
Pra sair de casa eu preciso usar um coletor urinário de perna, uma espécie de bolsa que fica presa à perna, onde a urina é armazenada, que está ligada a uma mangueirinha que tem uma espécie de camisinha na ponta, quando a bolsa está muito cheia é só esvaziar no sanitário. Mas o problema não acaba por aí, como não tem mais o controle vesical, o lesado medular também precisa fazer o cateterismo pra conseguir esvaziar a bexiga por completo e evitar infecções urinárias, que podem até comprometer os rins. Sim, isso mesmo, passar uma sonda pela uretra até a bexiga (e dá um trabalho danado).




Coletor Urinário de Perna





Com a lesão, o intestino fica mais preguiçoso, mas pode funcionar a qualquer momento e sem aviso prévio. A solução é tentar condicioná-lo a funcionar regularmente pra não ter acidentes indesejáveis, cuidando da alimentação e criando uma rotina que facilite o seu funcionamento regular.
É... eu sei que parece um saco. E é mesmo, mas que opção eu tenho? Ou você se adapta ou fica trancado em casa vendo a vida passar. O que ajudaria bastante seria melhorar a acessibilidade, principalmente aumentando o número de banheiros acessíveis, mas enquanto isso não acontece, a gente vai levando como pode.
Além desses inconvenientes existem vários outros que dificultam a vida de um lesado medular, mas não vão faltar oportunidades pra falar a respeito. Por pior que a cadeira de rodas pareça, talvez ela seja o menor dos meus problemas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Humor Negro

Aleijado que é aleijado precisa aprender a fazer piada da própria deficiência, assim fica mais fácil enfrentar as dificuldades e desafios do dia a dia. Se você não conseguir achar graça na própria desgraça, tudo fica mais difícil. Então, só pra descontrair, aqui vai uma piada de cadeira de rodas:



Um senhor estava pescando à beira de um rio, como fazia de costume. Em determinado momento, chegou uma jovem numa cadeira de rodas, parou ao lado daquele senhor e, passados alguns segundos de silêncio, disse:
- Ninguém nunca me abraçou!
O senhor olhou pra ela, com um pouco de pena, e deu-lhe um abraço apertado. A jovem foi embora felicíssima. No dia seguinte aquele mesmo senhor estava pescando no rio e, pra sua surpresa, a jovem aparece mais uma vez, pára ao seu lado e, depois de alguns segundos:
- Ninguém nunca me beijou!
Aquele senhor olhou pra ela e, percebendo as segundas intenções da moça, deu-lhe um beijo daqueles de tirar o fôlego. Sem dizer uma palavra, a moça foi embora mais uma vez, muito contente. Terceiro dia e a cena se repete, o homem está lá pescando e a garota se aproxima mais uma vez, pára ao seu lado e depois de alguns segundos diz:
- Ninguém nunca me fodeu!
O homem olha pra ela com uma cara sacana, pensa um segundo e resolve agir. Pega a moça de jeito, derruba ela no chão, pega a cadeira e joga no rio. Daí ele se levanta, olha nos olhos dela e diz:
- Pronto, agora você tá fudida!



Aleijado só se fode!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sarah



Voltei de mais uma passagem pelo Sarah de Brasília. Pra quem não sabe, ou não conhece, o Sarah é uma rede de hospitais de reabilitação que está presente em várias cidades do Brasil. Há dois anos eu não fazia uma visita, então resolvi ligar e eles marcaram a minha ida. Desta vez não fui pra ficar internado, apenas uma revisão. No primeiro dia fiz alguns exames: colhi sangue para os exames laboratoriais, fiz um ultrassom do aparelho urinário e o pior exame do mundo, a terrível urodinâmica (quem já fez sabe do que estou falando). Resultados normais, nenhuma grande novidade.
No dia seguinte a consulta médica, decidimos manter a mesma conduta no tratamento e houve apenas uma ressalva: resolver a questão da fratura que ainda tenho no fêmur direito (que mesmo após três anos, ainda não consolidou). Antes disso, não posso voltar ao Sarah. Agora não tem jeito, vou ter que passar por mais uma cirurgia.
Enfim, o mais importante não é isso. Quero mesmo é comentar a respeito das lembranças que essa visita me trouxe. Depois da urodinâmica, sentado no corredor a espera de alguém que fosse me levar para os próximos exames, conheci uma paciente que estava ali esperando pra ser atendida. Ela tinha apenas 10 meses de lesão e aquela era sua primeira estada no Sarah. Vi-me novamente na situação dela; recém-lesado, perdido ali em um mundo novo, preso num corpo que já não me obedecia mais, com a esperança de que em breve tudo voltaria ao normal.
Pois é meus amigos, é duro. Os primeiros dias, os primeiros meses... o primeiro ano, talvez o ano mais importante do resto da minha vida. Tudo aquilo passou pela minha cabeça novamente: eu já venci esta etapa. Ela entrou pra fazer o exame e eu continuei esperando, torcendo pra que ela tivesse forças pra enfrentar a batalha que tinha pela frente. Fiquei com meus pensamentos e minhas lembranças.
Esperança renovada.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Keep walking


Engraçado ouvir isso de um paraplégico, né? Mas é o sentido da frase que conta. Sabe aquele ditado que diz: “Pra morrer basta estar vivo”? Pois então, acho que a coisa é bem por aí. Há pouco tempo comecei a treinar basquete em cadeira de rodas e lá conheci histórias muito diferentes entre si, mas cada uma com sua “tragédia pessoal”.
Um dos meus companheiros foi vítima de bala perdida aos nove anos quando brincava na porta de casa. Cara, você já se deu conta do que é isso? O moleque era uma criança, mal tinha deixado de molhar as calças e, de uma hora pra outra, acabou ficando paraplégico. A adolescência por si só já é uma fase complicada, imagine como foi enfrentar todas as dúvidas e inseguranças desse período numa situação completamente diferente dos amigos, ainda mais num momento em que tudo o que queremos é nos sentir parte de um grupo, estar integrado. Deve ter sido dureza.
Lá cada um tem sua história, alguns são vítimas da pólio, outros sofreram acidentes automobilísticos, dois ou três amputados, enfim, vários casos diferentes, cada um mais estropiado que o outro. Todos sofreram mudanças bruscas nas suas vidas e seguiram em frente, como eu estou tentando fazer. O mundo não vai parar pra que eu resolva meus problemas, nem você os seus.
Lá se foram três anos, e eu continuo aqui. Às vezes fraquejo, mas reúno forças; penso em desistir, mas continuo lutando; penso em parar, mas sigo em frente; me sinto quebrado, mas junto os cacos e bola pra frente. Estou aprendendo bastante com aquele monte de aleijados, principalmente a fazer piada da própria desgraça.No fim das contas temos que fazer como o velho Johnny, meu companheiro de aventuras: Keep walking! (Que no meu caso seria Keep riding, ou coisa parecida).
Obs.: Antes que alguém se pergunte, meu acidente não foi causado por bebida. A figura é apenas um toque de humor negro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Vagas reservadas

Hoje fui almoçar no shopping e, pra variar, encontrei vários carros parados nas vagas reservadas sem a devida identificação. Será que as pessoas desse Brasil nunca vão respeitar? Bem, fica aí uma sugestão pra ajudar na conscientização dos "cidadãos":

sábado, 8 de agosto de 2009

Minha vida é uma adaptação.

Não sou mais como antes, porque já não tenho a mesma autonomia sobre meu corpo. Ele não me obedece e é difícil conviver com isso, nossa relação já não é mais de cumplicidade, ele não responde aos meus comandos e tampouco me avisa o que acontece com ele, não nos comunicamos muito bem. A cumplicidade de antes se transformou num conflito, e hoje existem apenas alternativas, adaptações para tornar essa convivência mais pacífica.
Como não ando com minhas próprias pernas, dependo da cadeira de rodas pra me deslocar de um lugar para outro. E o que é a cadeira, senão uma adaptação? Uma adaptação feita para suprir a necessidade que temos de nos locomover. Quando não estou na cadeira ainda consigo caminhar um pouco, com a ajuda de um andador (ou muletas) para me ajudar a manter o equilíbrio, e uma órtese que me ajuda a fixar a perna direita, já que não a movimento. São apenas adaptações, e, assim como essas, existem muitas outras.
Elas estão por todo lado. A cadeira de rodas, o andador, as muletas e a órtese me ajudam na locomoção, uma cadeira de banho permite que eu use o chuveiro, existem adaptações para que eu use o banheiro e faça minhas necessidades e tantas outras para as mais diferentes ocasiões. Hoje, a minha casa (a casa dos meus pais) está toda adaptada às minhas limitações, só assim eu posso ser independente aqui dentro. As adaptações estão por todo lado, são tantas que às vezes me pergunto se não me tornei uma delas, uma adaptação daquele Ronald de antes do acidente.
No fundo ainda sou o mesmo, apenas dependo delas pra conviver com minha deficiência. Às vezes quero ver-me livre, fingir que as adaptações não me são necessárias. Elas não me pertencem, não fazem parte de mim, mas hoje eu não consigo viver sem elas. As adaptações me perseguem, elas estão por todos os lados, preenchendo lacunas que se fizeram presentes e me impedem de comandar meu próprio corpo. Eu, que sempre busquei ser auto-suficiente, que sempre prezei pela minha independência, hoje me vejo dependente de uma parafernália pra conseguir realizar tarefas corriqueiras.
Estarei livre um dia? Acredito que sim, e é por isso que eu luto, mas por enquanto só me resta seguir em frente, não posso desistir. Vou tentar enquanto tiver forças, mas por hora tenho que me acostumar. Minha vida é uma adaptação, e eu preciso me adaptar a ela.