quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pin-Up Burgueria - Avaliação de Acessibilidade

Retomando as avaliações de acessibilidade no blog, desta vez visitei a Pin-Up Burgueria. É a segunda vez que eu vou lá e a experiência foi novamente satisfatória. Mas vamos ao que interessa.
A Pin-Up Burgueria, como o próprio nome diz, é uma lanchonete especializada em sanduíches, ambientada naquele clima dos anos 50 (ou 60, sei lá...). A decoração, o layout dos cardápios, as mesas... tudo remete a essa época. O clima é bem legal e o atendimento não deixou em nada a desejar.
Há uma vaga reservada para pessoas com mobilidade de reduzida, muito bem localizada, próxima à entrada, mas mal sinalizada (não tirei foto). Sabemos que isso não é garantia que ela será respeitada, mas ao menos impõe respeito, né? A vaga estava ocupada por outro carro quando cheguei, mas como o estacionamento estava vazio (e a fome grande), parei em outro lugar sem problemas.
Na entrada há uma rampa com uma inclinação bem suave, muito bem feita e a porta de entrada é bem larga. Tudo nos conformes, ou melhor, quase tudo... Quando cheguei um carro bloqueava o início da rampa e o gerente se prontificou a chamar o dono, resolvendo o problema rapidamente.

Rampa de entrada com inclinação suave. Um carro bloqueava a 
entrada quando cheguei, que poderia ser protegida com aqueles
blocos de concreto pra impedir que isso aconteça.
Fonte: https://www.facebook.com/pinuparacaju

O salão é espaçoso e há bastante espaço pra circulação da cadeira de rodas. As mesas com apoio central apoiadas em quatro pés não deixam um vão livre pra o encaixe perfeito da cadeira. Aí vale aquele velho truque de ficar meio de lado, meio inclinado pra se encaixar na mesa.

 Ambiente bem decorado e espaçoso.
Fonte: https://www.facebook.com/pinuparacaju

Esse tipo de pé não permite que a cadeira entre completamente.

O banheiro está bem adaptado, é espaçoso, a porta abre corretamente para fora e tem barras de apoio. Achei a pia um pouco alta, mas nada que inviabilize o uso; e tem um vão livre embaixo onde a cadeira fica bem posicionada pro malacabado lavar as mãozinhas. O espelho está muito alto e eu, infelizmente, não pude retocar a maquiagem.

 Sanitário com barras de apoio nos dois lados.

Pia com vão livre embaixo, mas o 
espelho está muito alto.

Agora vamos à melhor parte: a comida. Durante alguns dias da semana (não lembro quais) a Pin-Up tem o sanduíche do dia, que dá um desconto de R$ 5,00 no preço original. No dia da minha visita era o Royal Burger (de R$ 17,50 por R$ 12,50), um hambúrguer delicioso com um creme de queijo do reino, vale muito à pena. Eu estava com tanta fome que esqueci de tirar foto, então roubei novamente do Facebook deles. Achei o preço justo e a comida muito bem feita.

Royal Burger
Fonte: https://www.facebook.com/pinuparacaju

O Pin-Up está devidamente avaliado e aprovado. Com relação à acessibilidade apenas umas falhas aqui e ali que podem ser facilmente corrigidas.

Pin-Up Burgueria
Rua José Carvalho Pinto, 557.
Bairro 13 de Julho.
Aracaju - SE

* A ideia de fazer avaliações de acessibilidade é uma tentativa de chamar atenção e aumentar o conhecimento sobre o assunto. Se você tem alguma dúvida, sugestão, crítica ou elogio, sinta-se à vontade e deixe um comentário.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Filosofando

Desde que me arrebentei todo e entrei para a Matrix, essa realidade paralela onde vivem as pessoas com deficiência, comecei a observar a maneira como a sociedade nos enxerga e cheguei a algumas conclusões bem interessantes. A mais intrigante delas é a tendência de transformar automaticamente pessoas com deficiência em nobre inspiração para a humanidade.
Já faz algum tempo, eu estava terminando de montar minha cadeira pra sair do carro quando uma tiazinha apareceu do nada e se aproximou dizendo: "Isso aí que é um exemplo de vida, não é?". Eu juntei toda a minha boa vontade e lhe devolvi o meu mais sincero "Aham" com um sorrisinho no canto da boca (era o máximo que eu podia fazer naquele momento). Não eu não fui mal educado, fui simpático, agradeci as palavras e disse que precisava ir porque estava com um pouco de pressa, enquanto arrumava a carcaça na cadeira.
Outras situações parecidas já aconteceram comigo e com pessoas que conheço e isso revela uma visão completamente errada da minha realidade atual. Parece que nós não somos pessoas reais, não estamos inseridos nesse mundo, não podemos ser professores, médicos, engenheiros, publicitários, jornalistas... Nós servimos pra inspirar. Acho que parte dessa responsabilidade recai sobre a mídia, que reforça esse estereótipo. Na grande maioria das vezes só vejo meus coleguinhas malacabados retratados como grandes esportistas que superam suas próprias limitações.
Sinto desapontá-los, mas fomos todos enganados. A ideia que nos foi vendida é que ter uma deficiência nos torna excepcionais, e isso não é verdade. Aqueles grandes exemplos de superação das paraolimpíadas (ou paralimpíadas, como queiram) não são super-heróis, aquele rapaz que não consegue mexer braços e pernas mas pinta um quadro segurando o pincel com a boca também não, aquele outro que monta sua própria cadeira de rodas pra sair do carro sozinho (esse aí sou eu! hehehe), muito menos. Eles não são excepcionais, não são super-heróis, não são diferentes de ninguém. Apenas usam toda a capacidade do seu corpo pra realizar as tarefas da forma que for possível.
Sim, viver com uma deficiência é mais difícil e nós temos que superar algumas dificuldades para poder realizar certas coisas, mas e você também não tem? Essas imagens acabam objetificando as pessoas com deficiência, mas com que propósito? A resposta mais correta seria: em benefício das pessoas sem deficiência. Pra fazê-las sentirem melhor a respeito de si, colocando seus medos, suas preocupações em uma perspectiva diferente. "Se aquele cara/aquela moça com toda dificuldade que tem consegue fazer as coisas sem reclamar, por que eu me queixo tanto?". É importante entender que o que mais nos limita não é a deficiência em si, mas o mundo em que vivemos, que não dá oportunidade às pessoas que têm necessidades diferentes da maioria. A mentalidade dominante a respeito da deficiência precisa mudar para que as capacidades das pessoas se destaquem, em detrimento de suas incapacidades (se é que se pode chamar assim).
Vou parar por aqui e dizer o que me despertou a escrever esse texto. Acabei de assistir um vídeo no aplicativo TED que deu voz a tudo o que eu pensava sobre a maneira como a sociedade enxerga as pessoas com deficiência. Se você não conhece, o TED é uma organização que se dedica a divulgar idéias, exibindo vídeos de curtas palestras, geralmente muito boas, sobre os mais diferentes temas. O seu slogan "Ideas worth spreading", algo como "Idéias que valem a pena ser espalhadas/compartilhadas" já resume tudo. É uma boa alternativa para aqueles pequenos momentos ociosos.
Enfim, no vídeo Stella Young, comediante e jornalista (ah! E cadeirante), discorre a respeito de tudo que falei acima. Parte do que escrevi foi transcrito das palavras dela, mas suas reflexões são mais profundas do que abordei. Ela fala do alto de sua cadeira de rodas motorizada por nove minutos de maneira leve e engraçada. E dá um show. O vídeo tem 9 minutos e vale muito à pena.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Sessões


 Quando "As Sessões" entrou em cartaz eu estava muito curioso e com muita expectativa para assisti-lo. Já tinha lido algumas críticas positivas e queria saber como um tema tão complexo seria abordado no cinema. Mas aqui em Aracaju as opções de cinema ficam quase restritas à rede Cinemark, que não privilegia filmes fora do circuito comercial. Talvez o filme tenha sido exibido em curtíssima (íssima, mesmo) temporada em alguma sessão Cine Cult, mas eu não tinha conseguido assistir... até agora.


Mark O'Brien é um escritor e poeta que contrai poliomielite na infância e fica apenas com os movimentos restritos acima do pescoço. Aos 38 anos, Mark decide dar início a sua vida sexual e para isso contrata uma terapeuta especializada em ajudar pessoas com deficiências como a sua a encontrar o seu potencial nesses quesitos de saliência... Vocês entendem à que me refiro, né?
Pois bem. Ao longo das sessões Mark tem que aprender a lidar com suas inseguranças e medos, além do completo desconhecimento nesse tipo de relações íntimas. Sua falta de jeito é óbvia, engraçada e até comovente. Ele acaba, inevitavelmente, se envolvendo emocionalmente com mulheres que cruzam o seu caminho, sofre com a rejeição em alguns casos e divide suas dúvidas com o amigo padre Brendan, que se vê constrangido ao falar do assunto, mas entende a situação de Mark.
O filme é muito bonito, poético, emocionante... Acho que nos faz refletir a respeito da força do espírito humano, é uma daquelas obras que nos faz sentir mais leves. Como eu não gosto de estragar a surpresa de ninguém e quero que vocês assistam, vou deixá-los com o poema escrito por Mark para Cheryl, sua terapeuta. Mas creio que o poema, escrito inicialmente para ela, tomou uma proporção muito maior, uma declaração de amor à vida:


Poema de amor para ninguém em especial 

Deixe-me tocá-la com minhas palavras
Pois minhas mãos inertes pendem
como luvas vazias
Deixe minhas palavras acariciarem seu cabelo
deslizar tuas costas abaixo
e brincar em teu ventre
pois minhas mãos,
de voo leve e livre como tijolos
ignoram meus desejos
e teimosamente se recusam a tornar realidade
minhas intenções mais silenciosas
Deixe minhas palavras entrarem em você
carregando lanternas
aceite-as voluntariamente em seu ser
para que possam te acariciar devagarinho
por dentro.

Mark O'Brien 


Beijo nas crianças.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Força, Laís!


Força, Laís! Eu já estive onde você se encontra agora. Talvez seja por isso essa angústia que sinto quando vejo alguma notícia a seu respeito ou simplesmente lembro da situação.

"Força, Laís!". Digo pra mim mesmo sempre que ouço especulações a respeito do seu estado de saúde: "Laís Souza pode nunca mais voltar a respirar sem a ajuda de aparelhos"; "Laís Souza não mexe braços e pernas"; "Laís Souza pode ter sequelas irreversíveis"... Espero que você não se prenda a previsões, elas não são certezas. Pense no agora.

Força, Laís! É difícil estar preso à imobilidade recém-adquirida do corpo, mas o processo é lento, requer paciência. A última notícia que tive é que a sua mãe já está ao seu lado. Aproveite, isso faz toda a diferença.

Força, Laís! Aposto que a toda hora você recebe recados da família, amigos e até desconhecidos que estão torcendo por você (inclusive eu). É muito bom se sentir querido, então abrace esse sentimento, as orações de todos por você.

Força, Laís! A vértebra deslocada, a medula comprimida, não são sentenças absolutas. Eu cheguei a ouvir prognósticos muito ruins que não se confirmaram.

Força, Laís! Situações como essa são acidentes e acontecem diariamente. Mas o fato de você ser uma pessoa pública traz a notícia pra dentro da casa das pessoas e acho que por isso me sinto tão próximo da situação, me pego lembrando do que aconteceu comigo. Então desejo que você mantenha a serenidade que eu, felizmente, consegui durante a internação; que você receba tanto carinho quanto eu recebi e que consiga transformar esse sentimento das pessoas em energia positiva.

Força, Laís! Lesão medular não é brincadeira, mas eu não ouvi nenhuma declaração afirmando que você lesionou a medula seriamente. A vértebra foi deslocada, a medula comprimida e isso gerou um edema (pelo menos assim foi divulgado). A minha torcida é para que não seja nada além disso e que você se recupere por completo. E se, por infelicidade, houver sequelas, que elas sejam as menores possíveis.

Força, Laís! A minha torcida é total por você e é isso que eu tenho a dizer: força!