sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Uma luz de alerta.

Zé Gotinha foi o símbolo da campanha brasileira contra a poliomielite. (Foto: Divulgação/Ministério da Saúde)
Fonte: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2018/10/doenca-similar-paralisia-infantil-assusta-os-estados-unidos.html?utm_source=notificacao-geral&utm_medium=notificacao-browser

Hoje uma matéria publicada no site da Revista Galileu me chamou a atenção. O título por si  só já acende um alerta: "Doença similar a paralisia infantil assusta os Estados Unidos". Apesar de não ser o meu caso, já que sofri uma lesão medular há 12 anos, conheci bastante gente acometida pela poliomielite (pra falar o nome correto) ao longo desses anos e sei que a doença é muito grave e gera um fardo pesadíssimo a ser carregado, especialmente por uma criança.
"São quase 400 casos da doença com sintomas semelhantes ao da poliomielite, que foi praticamente erradicada em todo o mundo", diz o subtítulo. O que já mostra que o fato não pode ser ignorado. As crianças atingidas receberam o diagnóstico de mielite flácida aguda (MFA). Os estudos ainda são muito recentes, mas nas últimas ondas da doença, em 2014 e 2016, os cientistas apontaram um parente do poliovírus, chamado enterovírus D68 (EV-D68), como um possível culpado.
Ainda não existem evidências conclusivas e muitas dúvidas ainda pairam no ar, como por exemplo por que o vírus paralisa apenas uma pequena minoria das crianças que infecta. Os sintomas iniciais se assemelham aos de um simples resfriado, com tosse, espirros e febre moderada, por isso o enterovírus nem sempre é diagnosticado e ninguém sabe o quão é comum. Apenas nos poucos casos em que a doença avança, as crianças apresentam uma súbita perda de controle muscular.

"Uma vacina candidata desenvolvida na China mostrou resultados promissores em camundongos, 'mas no momento, a taxa de complicações do vírus são muito baixas para fazer valer a vacinação generalizada', diz Heli Harvala, virologista da University College London. Ainda assim, 'pode ser algo que precisamos considerar. É bom estar preparado'."

A medida que a campanha de 30 anos para erradicar a pólio acabar, a atenção deve ir naturalmente se desviando pra outros vírus que podem paralisar as crianças, diz a matéria.Todas as informações ainda são muito novas e ainda há mais dúvidas que certezas, mas em respeito aos pequenos não podemos deixar de acender uma luz de alerta. Fica a dica e até a próxima!

Pra acessar a matéria na íntegra é só clicar aqui.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Câmara Municipal de Aracaju - Avaliação de Acessibilidade

No mês passado fui convidado pra dar a minha contribuição em uma sessão especial realizada na Câmara Municipal de Aracaju, evento que fazia parte da Semana Aracaju Acessível, organizada pelo vereador Lucas Aribé (tema do post anterior). Como não podia deixar passar, aproveitei a oportunidade pra fazer uma avaliação da acessibilidade da "Casa do Povo" que trago aqui e agora pra vocês.


O prédio da Câmara é localizado no centro de Aracaju, mais precisamente na Praça Fausto Cardoso, e como todo prédio antigo não foi pensado para satisfazer as condições mínimas de acessibilidade. Algumas alterações já foram feitas ao longo do tempo para melhorar a situação, mas nada que torne o prédio adequado pra receber o povo malacabado. Claro que por ser um prédio histórico existem uma série de limitações que impedem mudanças muito drásticas, mas acreditem quando eu digo: com um pouco de boa vontade poderia ser bem melhor.

Foto retirada da internet.

Pra começar, a entrada principal não dispõe de nenhuma facilidade, sequer uma rampa na frente. A rampa mais próxima pro aleijadinho aqui conseguir subir a calçada fica a cerca de 50 metros da porta principal, na esquina da praça. Na entrada existe um lance de escadas; seria difícil colocar uma rampa ali sem desconfigurar a fachada, mas uma plataforma elevatória resolveria o problema e, convenhamos, o custo não seria nada demais para os recursos de que o poder público dispõe. No entanto, podemos deduzir sem muito esforço que isso não é visto como prioridade. Pra quê dar acesso digno ao POVO na "Casa do Povo"? A Casa, que tem hoje apenas um representante das pessoas com deficiência, o próprio vereador Lucas Aribé, já recebeu outros parlamentares malacabados. Ainda assim...

Foto retirada da internet.

A calçada é um caso à parte. As pedras portuguesas que revestem toda a praça são o terror de quem usa cadeiras de rodas, muletas e outros apetrechos. E com certeza deve trazer más lembranças também a pessoas não deficientes que torcem seus tornozelos nos buracos deixados pelas pedras que se soltam (fato comum neste tipo de piso). Não entendo porque ainda usamos as pedras portugas com tantas opções melhores. Concreto usinado já! É bom pra mim, é bom pra você, é bom pra todos!



A minha entrada triunfal se deu pela porta dos fundos, onde existe uma rampa com inclinação um pouco acima do ideal. Ainda tive que encarar um rally porque o piso da praça está danificado e com muitas pedrinhas soltas. De qualquer forma eu acredito que deveria ter o direito de entrar pela porta da frente, o que vocês acham?

Tudo bem, eu estou descendo a rampa.
Mas é porque não tirei foto quando subia.

Lá dentro a circulação é mais tranquila, o piso é predominantemente plano e sem degraus, mas o plenário não tem nenhuma adaptação. O que significa que quando eu for eleito vereador, não terei como acessar o púlpito para proferir discursos inflamados sobre os direitos das pessoas com deficiência e dos cidadãos em geral, ou quando for meter o pau no Executivo, claro. Apesar de muita gente desconhecer, as principais funções do Legislativo incluem propor leis que beneficiem a sociedade e fiscalizar o Poder Executivo. Aprendeu Tiririca?
De qualquer forma, votem em mim em 2020! #sqn 😂😂😂😂😂



Como a Câmara é aberta ao público, existe um mezanino de onde os cidadãos podem assistir as sessões, onde há vagas reservadas para cadeiras de rodas e um elevador para garantir o acesso. O banheiro adaptado é espaçoso, mas estava um pouco sujo quando entrei. O ponto negativo é o aviso na porta: "RESTRITO PARA FUNCIONÁRIOS E DEFICIENTES". Pessoal, o banheiro deve ser de uso exclusivo das pessoas com deficiência. Em alguns casos, estas precisam utilizar sondas para esvaziar a bexiga e, por isso, estão mais sujeitas a infecções. Daí a importância de um banheiro limpo e exclusivo.




Bom, é isso aí. Espero não ter deixado nada de fora. De qualquer forma, curtam, comentem e compartilhem o post, quem sabe isso não contribui para um prédio PÚBLICO mais acessível?
Fico por aqui. Aquele abraço!

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Comunicar para incluir


Recentemente fui convidado para participar de um evento organizado pelo vereador Lucas Aribé e aceitei sem pestanejar. De 16 a 23 de setembro acontecerá a 6a. Semana Aracaju Acessível, que tem por objetivo trazer à tona a discussão a respeito da inclusão e da participação ativa das pessoas com deficiência na sociedade:

"A importância da comunicação no processo de inclusão social de pessoas com deficiência".

Este é o foco do evento que este ano tem o tema: "Comunicar para incluir". Como mantenho este blog há algum tempo e divido com vocês uma série de assuntos relacionados à minha realidade e ao mundo das pessoas com deficiência, fui convidado para dar uma pequena palestra contando um pouco da minha experiência pessoal. Compartilhar a maneira como utilizo a comunicação como ferramenta de interação e conscientização. A palestra acontecerá no dia 21 de setembro, Dia Nacional e Municipal de Luta da Pessoa com Deficiência, no Plenário da Câmara Municipal de Aracaju. Ficou combinado que vou contar um pouco da atuação a frente do Rodas pra que te quero, assim como algumas reflexões, "causos" interessantes, avaliações de acessibilidade que faço por aqui e algumas situações protagonizadas por mim e outras pessoas com deficiência.
A semana tem uma programação extensa, que se inicia com o Passeio Ciclístico Pedalando sem Barreiras no dia 16 e encerra com a Caminhada pela Acessibilidade no dia 23 de setembro. Para participar de alguns eventos é necessário realizar a inscrição no site www.lucasaribe.com.br. A programação completa também está disponível por lá. Eu poderia colocar todas as informações aqui, mas a lista é um pouco extensa e o site tem muito conteúdo bacana, então vale à pena fazer uma visita.

O projeto idealizado por Lucas Aribé acontece desde 2013 e este ano terá na programação jogos cidadãos, oficinas, seminário, campanhas educativas em escolas e outros espaços públicos e particulares. Em minha pesquisa no site descobri até um aplicativo que leva o nome do projeto, no qual os usuários podem registrar irregularidades encontradas em calçadas e passeios públicos da cidade. As contribuições resultarão em proposituras que o vereador apresentará à Câmara Municipal de Aracaju.

Aos 31 anos, Lucas Aribé é dono de uma biografia de respeito. Lucas é cego, mas a deficiência não foi um impeditivo na realização dos objetivos que traçou para sua vida. Aproveito para reforçar o convite para que vocês façam uma visita ao site e conheçam a história e o trabalho dele. Eu gosto muito de uma frase que diz: "Sua limitação não é o seu limite". E acho que Lucas traduz bem esse ideia, assim como eu, que apesar das dificuldades que enfrento, também vou à luta. É o que todos temos que fazer.
Costumo dizer que a luta pela inclusão é uma via de mão dupla. Não podemos esperar na inércia que a sociedade se torne mais tolerante e inclusiva por conta própria. É preciso aparecer, pois quem não é visto não é lembrado. É isso que este evento significa, então é hora de arregaçar as mangas.


“A extensa pauta de ações afirmativas tem o objetivo de mobilizar os aracajuanos para que falem, ouçam e reflitam sobre a comunicação e a acessibilidade como prática do seu direito cidadão. O tema 'Comunicar para incluir' chama a atenção para a barreira atitudinal e a necessidade de toda a sociedade assumir o seu papel transformador no processo de construção de um mundo sem barreiras”.


Lucas Aribé



domingo, 29 de julho de 2018

Querido diário... atualizando.

Depois de longos meses de inatividade bem justificados, estou de volta ao blog. No início de janeiro passei por uma cirurgia ortopédica de urgência que me afastou de uma série de atividades e do trabalho por 180 dias.
O que aconteceu? Bem, há 12 anos, quando ocorreu o acidente, sofri, entre outras coisas obviamente, uma fratura no fêmur direito. Na época o problema foi corrigido com a inserção de uma haste intramedular para fixar o osso e possibilitar a devida calcificação, o que não aconteceu como esperado.

Pausa para um breve esclarecimento: o fêmur, assim com outros ossos longos do corpo, possui uma espécie de túnel ósseo. Uma região oca onde se encontra a medula óssea, um tecido esponjoso mole onde  o organismo produz quase todas as células do sangue. Nesse espaço que foi colocada a haste intramedular.

Ao longo de todo esse tempo e uma série de tentativas de corrigir o problema, nunca houve a calcificação desejada. A única coisa que mantinha o meu fêmur alinhado era a própria haste, ela fazia as vezes do osso. Mas durante 12 anos o estresse das minhas movimentações diárias e "atividades extracurriculares" (que nunca foram poucas), causaram a fadiga do material. E no fatídico dia 21 de janeiro de 2018, a haste de titânio cedeu à pressão e foi pro beleléu.
Cirurgia, algumas complicações, pós-operatório, remédios, fisioterapia, consultas, suplementos e paciência. Agora, depois de tudo isso e com 12 anos de atraso, parece que o osso está colando de novo. É o que indica o raio-x que fiz no último dia 18.
Retornei ao trabalho essa semana depois destas longas férias forçadas, fui muito bem recebido por todos e completei 36 anos na última sexta-feira, 27. A vida não começou 2018 facilitando as coisas pra mim, mas ela nunca faz essa promessa a ninguém. Então sigamos em frente e força na peruca. Até o próximo post e beijo nas crianças.

domingo, 29 de outubro de 2017

Diário de um intercambista malacabado: Goodbye, San Francisco. Olá, Aracaju.


Bom, já estou de volta há duas semanas depois de passar 33 dias nos EUA. Quando viajei e comecei esta série de textos a intenção realmente era fazer um diário, produzir um novo texto a cada dois ou três dias contando as novidades da minha viagem. A aventura de um malacabado tentando se virar por conta própria em um país estrangeiro.
Realmente não consegui cumprir nem de perto esse cronograma, não levei computador porque a intenção era aproveitar os preços mais em conta para comprar um novo nos EUA, e escrever textos longos no celular é complicado. Na escola eu tinha acesso aos computadores do laboratório de informática, mas geralmente ao fim das aulas eu só queria sair pra almoçar. No hostel onde estava hospedado havia um computador no lobby à disposição, mas eu não queria ficar escrevendo por lá com o vai e vem de um monte de gente, então ficou pra depois. Aqui vai um pequeno resumo da aventura de um intercambista malacabado.
Pra começar: não foi fácil! Mas já falei aqui outras vezes: "Quem quer, dá um jeito. Quem não quer, dá desculpa". Como a certeza da viagem só aconteceu na última hora, durante a última semana, não pude planejar tudo como gostaria. Com mais tempo hábil eu teria planejado os melhores trajetos, as rotas de ônibus e metrô, os passeios que gostaria de fazer, onde e o que gostaria de comprar e mais uma infinidade de coisas. Mas quando não dá pra planejar, seguimos a lei do improviso.
Nos primeiros dias fiz o trajeto até a escola de ônibus, pegava o primeiro a 50 metros do hostel e um segundo que me deixava a pouco mais de uma quadra do destino. San Francisco é uma cidade de altos e baixos e a minha preocupação era que tivesse uma subida no meio do caminho. Depois percebi que a maior parte era uma descida suave e o restante era predominantemente plano. Então passei a ir rodando pra aula e pegava apenas um ônibus na volta, que subia a rua e eu só precisava descer um quarteirão pra chegar em casa.
As calçadas da cidade seguiam um padrão, havia rampas em todas as esquinas (a grande maioria bem feita) e as adaptações dos ônibus funcionavam perfeitamente. Os motoristas eram em grande maioria bastante solícitos e bem preparados, então não tive problemas. O sistema de trens e metrô também funcionava muito bem, apesar de ser bem sujo. Não tinha graves problemas de acessibilidade, mas geralmente havia apenas um elevador por estação, que estava sempre fedendo a mijo de mendigo. San Francisco tem muitos moradores de rua e acho que eles aproveitavam o ambiente reservado dos elevadores pra dar aquela aliviada. Felizmente não me deparei com nenhuma cagada. 💩💩💩
Rodar grandes distâncias sozinho pela cidade seria bem complicado, mas quem tem amigos tem tudo. Foi fácil me cercar de gente boa, amigos que estavam sempre dispostos a ajudar. Tinha brasileiros, japoneses, turcos, taiwaneses, italianos... Ao todo eram alunos de vinte e três nacionalidades na escola, todo mundo sempre ali pra dar uma forcinha quando eu precisasse. Claro que a ousadia de um cara na cadeira de rodas se virando sozinho por lá causava um certo estranhamento, mas ao conviver um pouco mais todos passavam a encarar a situação com naturalidade. Volta e meia eu ouvia aquele papo chato sobre ser um exemplo de superação e todo aquele blá blá blá que já conheço de cor e salteado. Mas a maneira que eu vejo as coisas é bem simples: eu tenho os meus problemas e as minhas dificuldades pra enfrentar a vida, mas dificuldades todo mundo enfrenta, uns mais, outros menos. A vida nem sempre é justa, mas é assim que ela é. A cadeira de rodas me impõe um série de limitações, mas o fato é que ela chama muita atenção, e talvez por isso desperte esse sentimento de admiração.
O meu curso de Business English (inglês para negócios) tinha aulas apenas pela manhã, então eu tinha as tardes livres pra fazer o que quisesse. E geralmente era um passeio com "ozamigos". Deu pra rodar bastante por San Francisco, conhecer os pontos turísticos, comer bastante junk food, visitar as cidades vizinhas... Não quero me alongar muito contando os detalhes de cada passeio, a intenção desse post não é ser um guia turístico para os malacabados que resolverem se aventurar por San Francisco, mas dividir um pouco da experiência enriquecedora que tive por lá. Como não sou um grande fã de fotos, não vou postar milhares de imagens aqui, mas quem tiver curiosidade pode dar uma olhada em alguns lugares que visitei no Instagram.
Por mais que um período de quatro semanas não seja longo o suficiente para uma imersão completa em um cultura diferente, dá pra aprender muita coisa se você souber utilizar o tempo que tem e mantiver a mente aberta. Viver a rotina de SF foi muito interessante, a escola ficava no coração do Financial District, bem no centro da cidade, onde as coisas acontecem. Era muito legal ir para a aula pela manhã vendo as pessoas indo trabalhar usando transportes bem alternativos. Gente vestida de maneira formal indo trabalhar de bicicleta, skate, patinete... Claro que havia bastante trânsito, muitos carros nas ruas, ônibus, bondes, mas muita gente preferia outras alternativas.
O convívio com alunos de tantas nacionalidades diferentes também foi muito legal. Ouvir tantos sotaques de várias partes do mundo me ajudou a melhorar bastante o meu entendimento da língua. Tanto que, às vezes, eu já me pegava pensando em inglês. Nas conversas com os outros alunos era sempre interessante trocar experiências sobre os costumes de cada país e aprender como cada cultura encarava assuntos diferentes. Um dos passatempos favoritos era ensinar alguns palavrões em português e depois ficar se divertindo com eles falando sem parar. Os japoneses, muito educados, achavam o máximo e sempre queriam aprender um novo. O preferido era, sem dúvida: "Puta que pariu!".
Foram quatro semanas vividas intensamente em San Francisco, na última eu já me sentia meio dividido, era um misto de emoções. De um lado aquela saudade que já vinha há algum tempo dando sinais de vida, do outro um pouco de tristeza, uma nostalgia antecipada por deixar pra trás uma experiência tão valiosa. Acho inclusive que as dificuldades inerentes à minha condição me fizeram valorizar ainda mais a oportunidade. O investimento financeiro é alto, claro. O investimento emocional, as expectativas criadas, também. Mas a experiência valeu todo o esforço para que desse certo. Antes de voltar pro Brasil ainda deu pra relaxar alguns dias em Miami na casa de um grande amigo, José Maurício, que fez questão de receber a mim e Alice na sua casa. Sim, a digníssima foi me encontrar em Miami e passamos uns dias passeando por lá.
O saldo final foi muito positivo. Volto dessa viagem com um entendimento mais amplo de mim e do mundo. Com mais segurança a respeito das minhas capacidades. Com mais amigos do que tinha quando fui e com a bagagem cheia de experiências enriquecedoras. Sim, o meu inglês está melhor, agora conheço algumas expressões que não conhecia, entendo um pouco melhor a linguagem técnica do mundo dos negócios. A princípio esse era o objetivo e estou feliz em tê-lo alcançado, mas o aprendizado foi bem maior que tudo isso. E essa certeza eu trouxe na mala.
Bola pra frente e até a próxima.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Diário de um intercambista malacabado: Lavando a roupa suja.

"Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia..." 🎶🎶🎶

A música é "Juventude Transviada", de Luiz Melodia, e nada tem a ver com o tema deste post além dos dois primeiros versos. Mas, como já disse outras vezes, o blog é meu e eu faço o que eu quero.
Pois bem, nessa jornada de intercambista malacabado aqui na Califórnia tenho feito muita coisa além de estudar: passeio bastante, visito vários lugares, compro uma coisinha aqui outra ali... Os desafios são constantes. As ruas de São Francisco são bem preparadas: rampas em todas as esquinas, calçadas quase sempre padronizadas, transportes coletivos acessíveis (com direito a cheiro de mijo nos elevadores e plataformas do sistema de trens e metrô)... A geografia da cidade é que não ajuda muito, já que SF é cheia de altos e baixos e as ladeiras são inimigas mortais dos cadeirudos. Mas isso é assunto pra outra história.
Vamos em frente: apesar da minha disposição pra encarar as adversidades, tem uma coisa que eu não tinha me atrevido a fazer desde o meu acidente: lavar roupa suja (literalmente). Não que eu fosse um exímio lavador de roupas, na verdade, mesmo quando morava sozinho, tinha quem o fizesse por mim. Durante a maior parte do tempo que passei em São Paulo, a vida colocou no meu caminho uma senhora baixinha do interior de Pernambuco que atendia pelo apelido de Bibiu. Ela era esposa do zelador do prédio e prestava serviço como diarista para alguns dos condôminos, incluindo aquele moleque de mais ou menos vinte anos que morava no apto. 12. Me tratava praticamente como um filho, mas infelizmente nos deixou de forma precoce há algum tempo. Enfim, mesmo tendo a Bibiu cuidando de quase tudo pra mim, às vezes eu precisava fazer algumas coisas por conta própria, e isso podia incluir lavar algumas roupas.
Bom, anos e anos depois, o aleijadinho resolve procurar sarna pra se coçar e se mete numa de fazer intercâmbio sozinho. Hospedado num hostel que não tem serviço de lavanderia, apenas uma lavanderia comunitária, ele se vê na situação em que precisa lavar as suas próprias roupas. E agora, o que ele faz? Hora de usar os conhecimentos aprendidos nos primórdios do século 21...




Vai no Walgreens (uma espécie de farmácia em que se encontra absolutamente de tudo - coisa de americano), compra o que precisa, volta para o hostel, planeja passo a passo tudo o que precisa fazer (como todo malacabado esperto) e encosta o umbigo no tanque. Ou melhor, estaciona a cadeira do lado das máquinas.
Separa as roupas, abre as roupas, coloca as roupas na máquina, coloca a quantidade correta de sabão, fecha a máquina, seleciona o programa e manda brasa. Meia hora depois, abre a máquina, tira as roupas, abre as roupas, coloca na secadora, limpa o filtro da secadora, fecha a secadora, seleciona o programa e manda brasa. Quarenta e cinco minutos depois, volta, retira as roupas da secadora, confere se estão lavadas e secas... Sucesso!



Missão quase cumprida. Hora de voltar pro quarto, mas deu preguiça de guardar tudo agora. Ah, deixa pra lá! A roupa já está toda limpa e seca, depois eu dou um jeito nisso...
Beijo nas crianças! Em breve, cenas dos próximos capítulos.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Diário de um intercambista malacabado: O desafio do planejamento.

É fato consumado! Pra tudo que vamos fazer na vida deve haver algum planejamento, pelo menos se você pretende fazer bem feito. Para malacabados, aleijadinhos e afins não é diferente. Nesse caso é ainda mais importante, é aí que a brincadeira fica séria.
Como já havia falado no post anterior, a grande dificuldade pra mim foi encontrar um lugar que pudesse me acomodar. E veja bem, a tarefa a princípio nem era das mais complicadas, porque a minha situação não exige necessariamente que o lugar seja adaptado, se ele for acessível eu já consigo me virar. E quando falo em acessível, basta ter uma porta que eu consiga entrar e um espaço razoável por conta da cadeira de rodas.
Depois de várias tentativas, mudanças de programação, busca de alternativas... encontramos aqui em San Francisco um hostel que poderia me hospedar. O quarto não é muito espaçoso, mas é o suficiente. Segue aquela linha que falei antes: não é adaptado, mas é acessível. Já o banheiro, grande terror dos cadeirantes, é bastante amplo e adaptado. Não têm uma cadeira de banho disponível, mas me arranjaram uma cadeira de plástico e, problema resolvido. Poucas coisas a melhorar.
Caso algum aleijadinho ousado como eu tenha a intenção de encarar um intercâmbio sozinho fica aqui a minha dica. O hostel que me hospedou é o Vantaggio, que fica na 505 O'Farrel Street, San Francisco. Já conversei com o pessoal aqui e eles têm dois quartos nessas condições. Não cheguei a ver o outro, mas deve seguir o mesmo padrão.
O café da manhã está incluso e os apartamentos são no estilo Studio: no quarto tem uma cama, um pequeno móvel para as roupas, uma pia, frigobar e microondas.
O único serviço é a limpeza dos quartos, que é feita uma vez na semana. A lavanderia fica à disposição dos hóspedes, que lavam sua própria roupa. Ainda não precisei utilizá-la, só estou hospedado há quatro dias, mas quando for necessário, naturalmente darei um jeito.
Pra melhorar a minha circulação no quarto pedi pra tirarem a mesinha de estudos, ela me impedia de chegar até o móvel pra guardar as roupas. Depois disso a situação ficou mais agradável.
Sem mais delongas, deixo aqui algumas fotos, os curiosos já vinham me cobrando.






Como havia dito, a mesa atrapalhava a circulação e pedi que fosse retirada.