terça-feira, 7 de junho de 2016

A cadeira da liberdade.

Hoje me deparei com um vídeo que me chamou muita atenção desde o título: "The cheap all-terrain wheelchair", ou "a cadeira de rodas barata para qualquer terreno", em tradução livre. Mais um vídeo do TED Talks (a respeito do que já falei em outro post). Este vídeo nem sequer é novo, foi postado em novembro de 2012, mas eu não tinha conhecimento.
Enfim, vamos ao que interessa. Após conhecer a realidade de pessoas com deficiência em países em desenvolvimento, Amos Winter, um engenheiro mecânico formado pelo renomado MIT, resolveu criar uma cadeira eficiente e barata que pudesse vencer terrenos difíceis. Em um primeiro exercício de criação pensou num equipamento inspirado nas mountain bikes, nada mais natural, dada a natureza do projeto. Mas esse tipo de bicicleta custa caro e está longe da realidade dos países em desenvolvimento.
O desafio era criar uma cadeira com o custo inferior a 200 dólares, capaz de percorrer 5km por dia em diferentes terrenos, que fosse pequena e manobrável o suficiente para o uso interno e facilmente reparável (com compenentes encontrados com facilidade). Após muito estudo, Winter pensou num sistema de alavancas simples que já existe há muito tempo e que seria composto de partes de bicicletas comuns.
Pra mim, a frase mais marcante do vídeo é quando ele fala que "a pessoa é a máquina complexa do sistema". Com esse sistema de alavancas, o usuário modifica o tipo de condução da cadeira apenas deslizando a mão para cima e para baixo nas alavancas. Para andar rápido, segura as alavancas perto dos eixos, o que gera um grande ângulo em cada movimento; à medida que o caminho se torna mais duro, basta deslizar as mãos para a parte de cima da alavanca, produzindo mais torque, o que permite vencer as dificuldades do terreno com menos esforço. E para utilizar a cadeira no ambiente interno, basta retirar as alavancas da transmissão e guardá-las no quadro, convertendo-a numa cadeira normal.
Segundo Amos Winter, o processo de criação foi baseado em alguns pilares: design centrado no utilizador, focado nos fatores sociais, funcionais e econômicos. Na minha humilde opinião, os objetivos do projeto foram alcançados com folga, que o diga Ashok, o alfaiate indiano apresentado no fim do vídeo, que pôde voltar a trabalhar quando passou a utilizar a cadeira da liberdade. Com a cadeira, Ashok conseguiu vencer novamente a distância de mais ou menos um quilômetro da sua casa até sua oficina.
E você o que acha? Acredito que não vai se arrepender de passar os próximos onze minutos assistindo este vídeo inspirador. Dá pra pôr  legendas, pra quem não manja dos "ingrês".


sábado, 26 de março de 2016

Um Foursquare para malacabados.


Olha eu aqui de volta! Confesso que andava muito relapso em relação ao blog, sem muita vontade e/ou inspiração pra escrever. Há mais de um ano não rabiscava nem uma palavrinha por aqui... até que fiquei sabendo de um aplicativo para celular que despertou o meu interesse. Antes de mais nada devo dar os créditos à pagina Vida Sobre Rodas do Facebook, onde fiquei sabendo do assunto e por onde cheguei a matéria da revista Exame.
Bom, sem querer fazer autopromoção, eu já tinha pensado em como seria legal se o Foursquare (aplicativo que uso com certa frequência) incluísse nos parâmetros de suas avaliações os critérios de acessibilidade dos locais. Cheguei a cogitar escrever para eles e sugerir a ideia, mas acabei nunca fazendo isso. Eis que um dia tenho a grata surpresa: um aplicativo chamado Guia de Rodas, que mapeia os locais com acessibilidade para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida e é alimentado com a colaboração dos próprios usuários. Ele utiliza a base de dados do Foursquare (o mesmo que citei logo acima), ou seja, já tem uma infinidade de lugares cadastrados, prontos para serem avaliados.
Assim que conheci a novidade, baixei o aplicativo e comecei a testá-lo. O app é muito intuitivo e fácil de usar. Para avaliar um local é só fazer o check-in e responder a um questionário rápido que inclui perguntas sobre estacionamento e facilidade de chegar, espaço para circulação interna, altura das mesas, existência de banheiros adaptados, etc. Depois de responder às perguntas o usuário ainda pode escrever comentários a respeito do local e fazer sua própria avaliação. Coisa que costumo fazer sempre (vai que o dono lê os comentários e tem a boa vontade de fazer as melhorias necessárias?).
Já sugeri pra alguns amigos malacabados, que também gostaram da ideia, e espero que mais algumas pessoas também o conheçam a partir desse post. Boas ideias devem ser multiplicadas e ferramentas como esta podem ajudar um pouco mais na construção de um mundo mais acessível e igual para todos. O que vocês acham?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Batistão - Avaliação de Acessibilidade


Visões externa e interna do estádio ainda não finalizado.

Aquela pose pra foto.

Ontem fui pela primeira vez ao Batistão (Estado Estadual Lourival Batista) depois da reinauguração. A minha experiência como cadeirante antes da reforma do estádio não era das melhores, não existia a mínima preocupação com acessibilidade. Na real, o estádio era ruim pra todo mundo: arcaico, desconfortável, sujo, sem banheiros, etc. Mas era o que tinha, então era o jeito.
Quando Aracaju não se candidatou pra ser uma das sedes da Copa do Mundo achei a atitude muito realista por parte do governo, porque felizmente o nosso dinheiro não seria desperdiçado na construção de um elefante branco, a exemplo de outras capitais do país. Mas foi anunciada uma reforma que prometia mudar a cara do estádio e transformá-lo numa arena moderna. Bom, terminada a reforma, o Batistão foi inaugurado no último dia 4 com a partida entre Confiança e Vitória pela Copa do Nordeste, mas preferi deixar pra assistir o clássico estadual ontem e conhecer a Arena, como se convencionou chamar os novos estádios.

Novo placar eletrônico acima da torcida do Confiança.

 Sergipe entrando em campo. Aquela área com sol também 
recebeu um ótimo público quando começou o jogo.

A torcida do Gipão.

Por fora o visual já ficou mais moderno com a instalação de placas de metal que deram uma cara nova à fachada. A área de acesso foi refeita, o estacionamento, que não é lá grande coisa, também. O piso de paralelepípedos nessa área dificulta o rolar da cadeira e torna a locomoção de qualquer pessoa que tenha alguma dificuldade de locomoção mais complicada. Muletas, bengalas, andadores e afins ficam muito instáveis nesse tipo de piso. Abaixo o paralelepípedo, viva o concreto usinado.

Nova fachada do Batistão.

O tradicional desrespeito às vagas exclusivas já era esperado, então nem vou tecer comentários, até porque, sabendo disso, fui de carona. Não tive grandes dificuldades pra pegar o ingresso na bilheteria, salvo a "boa vontade" e a cara de c... da moça do guichê, que verificava o passe das pessoas com deficiência e entregava o ingresso (aqui em Sergipe nós temos acesso livre a eventos esportivos, culturais e similares). E tinha também uma entrada exclusiva, que funcionou perfeitamente graças à boa vontade (essa sim) e educação do rapaz que estava responsável.
Assim que entrei no acesso às cadeiras brancas, onde ficam os espaços reservados às cadeiras de rodas, dei de cara com uma rampa muito bem feita (podia ter um pouquinho menos de inclinação, mas nada que comprometesse). Lá dentro, o estádio correspondeu a quase todas as expectativas, o resultado final ficou muito bonito, o acesso fácil aos lugares reservados e a posição privilegiada pra assistir o jogo merecem uma menção especial. O destaque negativo ficou por conta da falta de educação de algumas pessoas, que não entendem que aqueles lugares são exclusivos e não preferenciais. No intervalo do jogo fui comer aquela pipoquinha, que ninguém é de ferro, e quando voltei as cadeiras estavam indevidamente ocupadas por meia dúzia de folgados. Resultado: meu irmão que tinha entrado comigo e tinha direito a sentar em um daqueles lugares não tinha onde assentar a poupança, nem eu que às vezes gosto de sair da cadeira pra mudar de posição.

 Rampa.

Rampa.

 Área reservada às cadeiras de rodas.

Área reservada às cadeiras de rodas.

Não podia também deixar de falar dos banheiros, que me surpreenderam. Fui lá só pra dar uma olhada e tirar umas fotos. Os banheiros são exclusivos (masculino e feminino), separados dos convencionais e, pasmem, estavam limpos (vamos torcer para que continuem assim). Falando em limpeza, senti falta de cestos de lixo, não tinha nenhum. Isso mesmo: NENHUM. Acho que a gente tem que pensar em evoluir sempre, né? Se temos um estádio tão bonito agora vamos pensar em mantê-lo limpo.
Além disso, o lugar onde se compra comida poderia ser melhorado, coberto e receber uma infraestrutura um pouco melhor, nada demais, só um pouco de planejamento pra evitar tantas filas e ficar um pouco mais confortável.

Área externa dos banheiros exclusivos.

 Interior do banheiro exclusivo. Pia.

Interior do banheiro exclusivo. Vaso Sanitário.

Finalmente, o saldo da experiência foi positivo. O gramado estava um tapete, o que colaborou pra um bom jogo, o resultado final de 1x1 não deixou ninguém satisfeito, mas foi bom ver o Batistão de cara nova e recebendo um ótimo público de novo. Com exceção de alguns pequenos detalhes o Batistão está aprovado.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pin-Up Burgueria - Avaliação de Acessibilidade

Retomando as avaliações de acessibilidade no blog, desta vez visitei a Pin-Up Burgueria. É a segunda vez que eu vou lá e a experiência foi novamente satisfatória. Mas vamos ao que interessa.
A Pin-Up Burgueria, como o próprio nome diz, é uma lanchonete especializada em sanduíches, ambientada naquele clima dos anos 50 (ou 60, sei lá...). A decoração, o layout dos cardápios, as mesas... tudo remete a essa época. O clima é bem legal e o atendimento não deixou em nada a desejar.
Há uma vaga reservada para pessoas com mobilidade de reduzida, muito bem localizada, próxima à entrada, mas mal sinalizada (não tirei foto). Sabemos que isso não é garantia que ela será respeitada, mas ao menos impõe respeito, né? A vaga estava ocupada por outro carro quando cheguei, mas como o estacionamento estava vazio (e a fome grande), parei em outro lugar sem problemas.
Na entrada há uma rampa com uma inclinação bem suave, muito bem feita e a porta de entrada é bem larga. Tudo nos conformes, ou melhor, quase tudo... Quando cheguei um carro bloqueava o início da rampa e o gerente se prontificou a chamar o dono, resolvendo o problema rapidamente.

Rampa de entrada com inclinação suave. Um carro bloqueava a 
entrada quando cheguei, que poderia ser protegida com aqueles
blocos de concreto pra impedir que isso aconteça.
Fonte: https://www.facebook.com/pinuparacaju

O salão é espaçoso e há bastante espaço pra circulação da cadeira de rodas. As mesas com apoio central apoiadas em quatro pés não deixam um vão livre pra o encaixe perfeito da cadeira. Aí vale aquele velho truque de ficar meio de lado, meio inclinado pra se encaixar na mesa.

 Ambiente bem decorado e espaçoso.
Fonte: https://www.facebook.com/pinuparacaju

Esse tipo de pé não permite que a cadeira entre completamente.

O banheiro está bem adaptado, é espaçoso, a porta abre corretamente para fora e tem barras de apoio. Achei a pia um pouco alta, mas nada que inviabilize o uso; e tem um vão livre embaixo onde a cadeira fica bem posicionada pro malacabado lavar as mãozinhas. O espelho está muito alto e eu, infelizmente, não pude retocar a maquiagem.

 Sanitário com barras de apoio nos dois lados.

Pia com vão livre embaixo, mas o 
espelho está muito alto.

Agora vamos à melhor parte: a comida. Durante alguns dias da semana (não lembro quais) a Pin-Up tem o sanduíche do dia, que dá um desconto de R$ 5,00 no preço original. No dia da minha visita era o Royal Burger (de R$ 17,50 por R$ 12,50), um hambúrguer delicioso com um creme de queijo do reino, vale muito à pena. Eu estava com tanta fome que esqueci de tirar foto, então roubei novamente do Facebook deles. Achei o preço justo e a comida muito bem feita.

Royal Burger
Fonte: https://www.facebook.com/pinuparacaju

O Pin-Up está devidamente avaliado e aprovado. Com relação à acessibilidade apenas umas falhas aqui e ali que podem ser facilmente corrigidas.

Pin-Up Burgueria
Rua José Carvalho Pinto, 557.
Bairro 13 de Julho.
Aracaju - SE

* A ideia de fazer avaliações de acessibilidade é uma tentativa de chamar atenção e aumentar o conhecimento sobre o assunto. Se você tem alguma dúvida, sugestão, crítica ou elogio, sinta-se à vontade e deixe um comentário.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Filosofando

Desde que me arrebentei todo e entrei para a Matrix, essa realidade paralela onde vivem as pessoas com deficiência, comecei a observar a maneira como a sociedade nos enxerga e cheguei a algumas conclusões bem interessantes. A mais intrigante delas é a tendência de transformar automaticamente pessoas com deficiência em nobre inspiração para a humanidade.
Já faz algum tempo, eu estava terminando de montar minha cadeira pra sair do carro quando uma tiazinha apareceu do nada e se aproximou dizendo: "Isso aí que é um exemplo de vida, não é?". Eu juntei toda a minha boa vontade e lhe devolvi o meu mais sincero "Aham" com um sorrisinho no canto da boca (era o máximo que eu podia fazer naquele momento). Não eu não fui mal educado, fui simpático, agradeci as palavras e disse que precisava ir porque estava com um pouco de pressa, enquanto arrumava a carcaça na cadeira.
Outras situações parecidas já aconteceram comigo e com pessoas que conheço e isso revela uma visão completamente errada da minha realidade atual. Parece que nós não somos pessoas reais, não estamos inseridos nesse mundo, não podemos ser professores, médicos, engenheiros, publicitários, jornalistas... Nós servimos pra inspirar. Acho que parte dessa responsabilidade recai sobre a mídia, que reforça esse estereótipo. Na grande maioria das vezes só vejo meus coleguinhas malacabados retratados como grandes esportistas que superam suas próprias limitações.
Sinto desapontá-los, mas fomos todos enganados. A ideia que nos foi vendida é que ter uma deficiência nos torna excepcionais, e isso não é verdade. Aqueles grandes exemplos de superação das paraolimpíadas (ou paralimpíadas, como queiram) não são super-heróis, aquele rapaz que não consegue mexer braços e pernas mas pinta um quadro segurando o pincel com a boca também não, aquele outro que monta sua própria cadeira de rodas pra sair do carro sozinho (esse aí sou eu! hehehe), muito menos. Eles não são excepcionais, não são super-heróis, não são diferentes de ninguém. Apenas usam toda a capacidade do seu corpo pra realizar as tarefas da forma que for possível.
Sim, viver com uma deficiência é mais difícil e nós temos que superar algumas dificuldades para poder realizar certas coisas, mas e você também não tem? Essas imagens acabam objetificando as pessoas com deficiência, mas com que propósito? A resposta mais correta seria: em benefício das pessoas sem deficiência. Pra fazê-las sentirem melhor a respeito de si, colocando seus medos, suas preocupações em uma perspectiva diferente. "Se aquele cara/aquela moça com toda dificuldade que tem consegue fazer as coisas sem reclamar, por que eu me queixo tanto?". É importante entender que o que mais nos limita não é a deficiência em si, mas o mundo em que vivemos, que não dá oportunidade às pessoas que têm necessidades diferentes da maioria. A mentalidade dominante a respeito da deficiência precisa mudar para que as capacidades das pessoas se destaquem, em detrimento de suas incapacidades (se é que se pode chamar assim).
Vou parar por aqui e dizer o que me despertou a escrever esse texto. Acabei de assistir um vídeo no aplicativo TED que deu voz a tudo o que eu pensava sobre a maneira como a sociedade enxerga as pessoas com deficiência. Se você não conhece, o TED é uma organização que se dedica a divulgar idéias, exibindo vídeos de curtas palestras, geralmente muito boas, sobre os mais diferentes temas. O seu slogan "Ideas worth spreading", algo como "Idéias que valem a pena ser espalhadas/compartilhadas" já resume tudo. É uma boa alternativa para aqueles pequenos momentos ociosos.
Enfim, no vídeo Stella Young, comediante e jornalista (ah! E cadeirante), discorre a respeito de tudo que falei acima. Parte do que escrevi foi transcrito das palavras dela, mas suas reflexões são mais profundas do que abordei. Ela fala do alto de sua cadeira de rodas motorizada por nove minutos de maneira leve e engraçada. E dá um show. O vídeo tem 9 minutos e vale muito à pena.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Sessões


 Quando "As Sessões" entrou em cartaz eu estava muito curioso e com muita expectativa para assisti-lo. Já tinha lido algumas críticas positivas e queria saber como um tema tão complexo seria abordado no cinema. Mas aqui em Aracaju as opções de cinema ficam quase restritas à rede Cinemark, que não privilegia filmes fora do circuito comercial. Talvez o filme tenha sido exibido em curtíssima (íssima, mesmo) temporada em alguma sessão Cine Cult, mas eu não tinha conseguido assistir... até agora.


Mark O'Brien é um escritor e poeta que contrai poliomielite na infância e fica apenas com os movimentos restritos acima do pescoço. Aos 38 anos, Mark decide dar início a sua vida sexual e para isso contrata uma terapeuta especializada em ajudar pessoas com deficiências como a sua a encontrar o seu potencial nesses quesitos de saliência... Vocês entendem à que me refiro, né?
Pois bem. Ao longo das sessões Mark tem que aprender a lidar com suas inseguranças e medos, além do completo desconhecimento nesse tipo de relações íntimas. Sua falta de jeito é óbvia, engraçada e até comovente. Ele acaba, inevitavelmente, se envolvendo emocionalmente com mulheres que cruzam o seu caminho, sofre com a rejeição em alguns casos e divide suas dúvidas com o amigo padre Brendan, que se vê constrangido ao falar do assunto, mas entende a situação de Mark.
O filme é muito bonito, poético, emocionante... Acho que nos faz refletir a respeito da força do espírito humano, é uma daquelas obras que nos faz sentir mais leves. Como eu não gosto de estragar a surpresa de ninguém e quero que vocês assistam, vou deixá-los com o poema escrito por Mark para Cheryl, sua terapeuta. Mas creio que o poema, escrito inicialmente para ela, tomou uma proporção muito maior, uma declaração de amor à vida:


Poema de amor para ninguém em especial 

Deixe-me tocá-la com minhas palavras
Pois minhas mãos inertes pendem
como luvas vazias
Deixe minhas palavras acariciarem seu cabelo
deslizar tuas costas abaixo
e brincar em teu ventre
pois minhas mãos,
de voo leve e livre como tijolos
ignoram meus desejos
e teimosamente se recusam a tornar realidade
minhas intenções mais silenciosas
Deixe minhas palavras entrarem em você
carregando lanternas
aceite-as voluntariamente em seu ser
para que possam te acariciar devagarinho
por dentro.

Mark O'Brien 


Beijo nas crianças.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Força, Laís!


Força, Laís! Eu já estive onde você se encontra agora. Talvez seja por isso essa angústia que sinto quando vejo alguma notícia a seu respeito ou simplesmente lembro da situação.

"Força, Laís!". Digo pra mim mesmo sempre que ouço especulações a respeito do seu estado de saúde: "Laís Souza pode nunca mais voltar a respirar sem a ajuda de aparelhos"; "Laís Souza não mexe braços e pernas"; "Laís Souza pode ter sequelas irreversíveis"... Espero que você não se prenda a previsões, elas não são certezas. Pense no agora.

Força, Laís! É difícil estar preso à imobilidade recém-adquirida do corpo, mas o processo é lento, requer paciência. A última notícia que tive é que a sua mãe já está ao seu lado. Aproveite, isso faz toda a diferença.

Força, Laís! Aposto que a toda hora você recebe recados da família, amigos e até desconhecidos que estão torcendo por você (inclusive eu). É muito bom se sentir querido, então abrace esse sentimento, as orações de todos por você.

Força, Laís! A vértebra deslocada, a medula comprimida, não são sentenças absolutas. Eu cheguei a ouvir prognósticos muito ruins que não se confirmaram.

Força, Laís! Situações como essa são acidentes e acontecem diariamente. Mas o fato de você ser uma pessoa pública traz a notícia pra dentro da casa das pessoas e acho que por isso me sinto tão próximo da situação, me pego lembrando do que aconteceu comigo. Então desejo que você mantenha a serenidade que eu, felizmente, consegui durante a internação; que você receba tanto carinho quanto eu recebi e que consiga transformar esse sentimento das pessoas em energia positiva.

Força, Laís! Lesão medular não é brincadeira, mas eu não ouvi nenhuma declaração afirmando que você lesionou a medula seriamente. A vértebra foi deslocada, a medula comprimida e isso gerou um edema (pelo menos assim foi divulgado). A minha torcida é para que não seja nada além disso e que você se recupere por completo. E se, por infelicidade, houver sequelas, que elas sejam as menores possíveis.

Força, Laís! A minha torcida é total por você e é isso que eu tenho a dizer: força!