quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Diversão x Cadeira de rodas.

Depois de um bom tempo sem postar no blog, me veio a ideia de falar a respeito do lazer depois da lesão medular. Pra quem vivia todo pimpão e serelepe sobre suas próprias pernas não é nada fácil ficar restrito à cadeira de rodas; redescobrir o prazer nas coisas é um grande desafio, pelo menos foi assim pra mim. No início nada tinha graça, nada era tão bom quanto antes. Comecei devagar, saindo com meus irmãos, primos e amigos pra jantar ou comer alguma bobagem, ir num barzinho, cinema, essas coisas... Mas não conseguia me divertir muito, a minha situação ainda me incomodava.
O primeiro grande obstáculo está na cabeça, é conseguir encarar sua situação com naturalidade, se ver como igual. E isso é um grande desafio. Cada um tem seu tempo, é preciso digerir a mudança que a vida lhe impôs, mas a duração desse processo varia de pessoa para pessoa. Já conheci quem tivesse muita dificuldade pra reverter a situação e outros que me deram aula de superação, autoestima e confiança. Ajudei alguns e aprendi com outros.
Acho que a minha mudança começou ainda no centro de Reabilitação, lá no Sarah de Brasília. Com apenas três meses de lesão consegui uma vaga e me mandei direto do hospital em que estava internado em São Paulo pra lá. Além da fisioterapia e das aulas sobre todos os aspectos da lesão medular, faziam parte do programa os momentos de lazer, dos quais o que me lembro com mais carinho é a bocha adaptada, que é uma adaptação do jogo de bocha para pessoas com deficiência. A princípio parecia muito chato pra mim, que vivia jogando futebol, vôlei e na academia, mas depois virou a atividade mais divertida da minha primeira internação. Era muito engraçado ver aquele monte de quebrados, um mais estropiado que o outro, jogando aquela bolinha e tirando sarro dos perdedores.



Bom, o tempo foi passando e, além da fisioterapia, eu fui buscando opções de lazer. As saídas com os amigos passaram a ser mais frequentes e o processo de aceitação vinha na medida que eu encarava a realidade, por mais difícil que fosse. Voltei a tomar minha cervejinha, nem sempre assim no diminutivo, a frequentar shows, bares e casas noturnas, chorei de frustração algumas vezes (cheguei até a escrever sobre isso aqui) por estar naquela situação, mas insisti e fui me adaptando.
Mas a vida não se resume às baladas. Como sempre fui muito ativo, queria praticar algum esporte e fiquei sabendo do time de basquete em cadeira de rodas daqui de Aracaju. Procurei saber o local e horário dos treinos e me mandei pra lá. Conheci Diel, o organizador do grupo, e o resto do pessoal. Comecei a treinar logo depois do regional e até hoje não parei. Sempre muito curioso, continuava pesquisando o que mais podia fazer. Lendo alguns blogs e conversando com o pessoal das internets conheci a handbike, uma espécie de bicicleta de propulsão manual, e não sosseguei até comprar uma. Agora estou levando o negócio mais a sério e comecei a treinar de verdade, pra competir assim como faço no basquete.


Até chegar aqui foi um longo caminho, de muita paciência e persistência, mas acho que consegui resumir um pouco como foi esse processo de adaptação que, como tudo que aconteceu depois da lesão medular, foi muito difícil. Continuo saindo e me divertindo com os amigos, tive que me adaptar à nova realidade e superar meus próprios preconceitos. Claro que em algumas situações eu me sinto um pouco incomodado. Por exemplo, uma ida à praia é bem diferente na cadeira de rodas, por isso não frequento tanto quanto o fazia antes, mas ainda assim vou e consigo me divertir. Outras tantas ocasiões ainda causam certo desconforto, mas a vida é assim mesmo, né? Mesmo com as dificuldades a gente precisa manter uma vida social: estudar, trabalhar e, claro, se divertir.
Eu me divirto bastante. E você?