quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Socorro! Estão querendo me catequizar!

Sabe quando a gente estudava História do Brasil e aprendíamos sobre as missões de jesuítas que vinham ao Brasil catequizar os índios? Às vezes eu me sinto como um desses índios. Fim de semana passado, um dos meus colegas da pós começou a me fazer um monte de perguntas na hora do almoço. Perguntas sobre o acidente, sobre a lesão, como eu me sentia em relação a tudo aquilo, etc. Até que ele comentou algo do tipo: "Mas eu nunca vi você falando que tinha fé em Deus que ia conseguir se recuperar". Daí em diante vocês já sabem onde a conversa foi parar, não é?
Esse tipo de coisa já aconteceu comigo várias vezes. Um dia eu estava saindo do prédio onde tinha me consultado no otorrino e uma moça me viu na cadeira de rodas e soltou: "O que aconteceu com esse menino bonito?". Depois de algumas perguntas ela pediu pra orar por mim e eu, inocentemente, aceitei. Ela botou a mão na minha cabeça, disparou numa oração em voz alta e todo mundo parou pra assistir a cena. Imaginou a cara do aleijado morrendo de vergonha? Minha mãe jura que aquilo foi um sinal dos céus, eu sou mais cético.
Por que será que as pessoas não resistem e sempre tentam catequizar os cadeirantes? Respeito a crença de todo mundo, mas não gosto que as pessoas tentem me impor a sua. O que aconteceu comigo é uma circunstância da vida e pode acontecer com qualquer um, a qualquer hora. Eu acredito SIM na minha recuperação, mas não acho que as coisas são desse jeito, que milagres acontecem como mágica e paraplégicos levantam de suas cadeiras de uma hora pra outra. Infelizmente não é assim que acontece. Gostaria que fosse.
Eu estou tentando conviver da melhor forma possível com a minha deficiência e todo mundo tem o direito de discordar, mas é assim que eu vejo as coisas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Viver a Vida

Não sou um grande espectador de novelas, nem gosto muito, mas como bom publicitário, assisto de vez em quando pra ficar a par do que acontece. E ontem, me deparei com o depoimento do João Carlos Pecci, no fim da novela "Viver a Vida". Eu já tinha lido um dos livros dele, o "Minha Profissão é Andar" (eu recomendo), e não posso deixar de elogiar também o depoimento. Ele sofreu um acidente e ficou tetraplégico aos 26 anos, mas com uma dedicação absoluta à fisioterapia conseguiu se tornar paraplégico. Uma situação bem parecida com a minha, que tive uma lesão bem alta na medula e também recuperei os movimentos dos braços e até algum controle das pernas.

Quem puder assistir, vale a pena:

Boa notícia

O convívio com a lesão medular é muito difícil, é duro acordar todo dia com a incerteza a respeito da recuperação. A única coisa que podemos fazer é tentar conviver da melhor forma possível com a situação, da forma como ela se apresenta. Eu tento fazer isso, mas as vezes perco a paciência. No entanto, de vez em quando nos deparamos com boas notícias, e estas renovam as esperanças. Hoje dei de cara com uma matéria da Folha de São Paulo que indica mais um avanço nas pesquisas em relação à lesão medular. A matéria, intitulada "Antidepressivo ajuda a recuperar lesão de medula", não aponta pra uma cura definitiva, mas é mais um indicativo que estamos no caminho certo.
Como bom menino que sou, resolvi facilitar a vida de vocês e colocar a matéria aqui. Quem tiver curiosidade, fique à vontade.



Antidepressivo ajuda a recuperar lesão de medula, mostra estudo

CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo



Um antidepressivo comum associado a um programa intensivo de treinamento em esteira pode ajudar pessoas com lesões parciais da medula espinhal a andar mais rapidamente e com mais desenvoltura, revela uma pesquisa inédita apresentada anteontem em congresso de neurociência que acontece em Chicago (EUA).
Os antidepressivos são usados para tratar dor crônica de lesionados na medula, mas é a primeira vez que um estudo com humanos mostra benefícios na recuperação motora.
Segundo os autores, o uso de um antidepressivo inibidor da recaptação de serotonina ajudou a fortalecer as conexões nervosas remanescentes da coluna, dando aos pacientes mais capacidade de controlar os músculos das pernas.
"A droga por si só não é milagrosa. Você precisa é da droga mais o treinamento", explica o médico George Hornby, professor do Instituto de Reabilitação de Chicago e um dos autores do estudo.
Segundo Hornby, foram testados os efeitos do antidepressivo em 50 pessoas que tinham capacidade parcial para mover-se, um ano após terem sofrido uma lesão da medula espinhal.
Durante oito semanas, os pacientes participaram de um treinamento em uma esteira motorizada, assistido por um robô ou por um fisioterapeuta. Eles tiveram o apoio de um suporte para não cair.
Cinco horas antes do treino, metade do grupo recebeu 10 mg de antidepressivo e a outra metade, placebo. Ambos os grupos melhoraram, mas aqueles que tomaram o remédio foram capazes de andar muito mais rápido, de acordo com Hornby.
Ele diz que a droga aumentou os espasmos musculares nos pacientes e que esses reflexos podem ser treinados. "Os pacientes que têm uma lesão da medula espinhal podem invocar esses reflexos para andar."
Os voluntários só tomaram o antidepressivo no dia do treinamento, mas os benefícios permaneceram mesmo depois que os efeitos da droga haviam passado, afirma o pesquisador.
Qualidade de vida
Segundo o médico Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, titular de ortopedia da USP e especialista em lesão medular, os resultados da pesquisa são "muito positivos", mas são necessários estudos maiores para que o tratamento seja incluído na prática clínica. "Está bem longe da cura, mas pode melhorar a qualidade de vida desses pacientes", diz ele.
Barros Filho explica que as pesquisas em animais já haviam demonstrado que o antidepressivo pode melhorar o tratamento de lesionados da medula porque facilitam a transmissão dos impulsos nervosos na coluna. "É uma peça a mais nesse gigantesco quebra-cabeça [que é a medula]."
De acordo com o neurologista Jaderson da Costa, coordenador do projeto e diretor do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, o antidepressivo age aumentando a disponibilidade de serotonina em pacientes que ainda têm um substrato neural na medula (lesão parcial) e isso pode ajudar na recuperação motora.
Ele lembra que esse tipo de droga também pode melhorar a disponibilidade afetiva, o que faz com que os pacientes se engajem em um programa de treinamento com mais facilidade. "O cérebro ajuda o cérebro."
O médico Cícero Vaz, fisiatra do Hospital Israelita Albert Einstein, avalia que mais estudos serão necessários para comprovar se o benefício apontado pelo estudo é neurofisiológico (pela ação da serotonina nos impulsos nervosos) ou emocional. "Esse tipo de paciente tende à depressão. Será que, ao melhorar, não há mais aderência ao tratamento?"

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Madrugada


Já é madrugada e eu estou sem sono. Todo mundo em casa já está dormindo e eu estou aqui sozinho com minhas dúvidas. Hoje eu fui jantar com uns amigos: Felippe (um amigão de longa data, acompanhado da namorada) e Paloma (amiga querida já há muitos anos). Conversa vai e conversa vem, rimos bastante, contando histórias novas e relembrando antigas. Sempre que isso acontece me vem à cabeça os velhos tempos (pré-lesão medular) e isso me traz boas lembranças, mas com elas também várias incertezas e a saudade de momentos que talvez eu não tenha de novo.
Como será minha vida daqui pra frente? Toda a minha luta é pra abandonar de uma vez por todas a cadeira de rodas, deixá-la pra traz definitivamente, mas por mais que eu insista na certeza de que isso vai acontecer, as dúvidas me perseguem. A fisioterapia, minha principal atividade nos últimos três anos, já se tornou quase insuportável, eu tento, mas não consigo mais encará-la de forma tranquila, acho que cheguei no meu limite. Amanhã ela começaria às 8 horas, mas eu não vou conseguir. Na verdade estou pensando em parar, pelo menos por um tempo. Eu queria parar definitivamente, mas, por mais que eu negue, a fisioterapia é necessária se eu almejo uma recuperação completa um dia. Preciso manter o alongamento dos meus músculos, mantê-los o mais ativos possível, nosso corpo funciona baseado na regra do uso e desuso. E o desuso é fatal.
O problema é que não consigo mais viver num eterno tratamento de saúde, insistir na fisioterapia sem trégua e sem conseguir o retorno almejado. Preciso de um tempo, vou parar e repensar os rumos da minha vida, investir o tempo livre em outras atividades que me tragam mais prazer e me façam descobrir cada vez mais coisas pelas quais vale a pena seguir em frente. Vou dar um tempo, pelo menos por alguns meses.
A vida continua e eu continuo saudoso dos velhos tempos, daqueles dias em que eu acordava, levantava da cama sem esforço e ia tomar um banho pra começar mais um dia, quando eu comandava e o meu corpo obedecia. Eu continuo acreditando, sigo cheio de expectativas, às vezes desanimo, mas não posso parar. Essa parada na fisioterapia é apenas uma pausa, vou recarregar as baterias pra poder recomeçar mais forte, sempre em busca do meu objetivo. O que eu não posso é deixar de acreditar. Já passam das 3 da manhã, agora preciso dormir.