quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Humor Negro

Aleijado que é aleijado precisa aprender a fazer piada da própria deficiência, assim fica mais fácil enfrentar as dificuldades e desafios do dia a dia. Se você não conseguir achar graça na própria desgraça, tudo fica mais difícil. Então, só pra descontrair, aqui vai uma piada de cadeira de rodas:



Um senhor estava pescando à beira de um rio, como fazia de costume. Em determinado momento, chegou uma jovem numa cadeira de rodas, parou ao lado daquele senhor e, passados alguns segundos de silêncio, disse:
- Ninguém nunca me abraçou!
O senhor olhou pra ela, com um pouco de pena, e deu-lhe um abraço apertado. A jovem foi embora felicíssima. No dia seguinte aquele mesmo senhor estava pescando no rio e, pra sua surpresa, a jovem aparece mais uma vez, pára ao seu lado e, depois de alguns segundos:
- Ninguém nunca me beijou!
Aquele senhor olhou pra ela e, percebendo as segundas intenções da moça, deu-lhe um beijo daqueles de tirar o fôlego. Sem dizer uma palavra, a moça foi embora mais uma vez, muito contente. Terceiro dia e a cena se repete, o homem está lá pescando e a garota se aproxima mais uma vez, pára ao seu lado e depois de alguns segundos diz:
- Ninguém nunca me fodeu!
O homem olha pra ela com uma cara sacana, pensa um segundo e resolve agir. Pega a moça de jeito, derruba ela no chão, pega a cadeira e joga no rio. Daí ele se levanta, olha nos olhos dela e diz:
- Pronto, agora você tá fudida!



Aleijado só se fode!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sarah



Voltei de mais uma passagem pelo Sarah de Brasília. Pra quem não sabe, ou não conhece, o Sarah é uma rede de hospitais de reabilitação que está presente em várias cidades do Brasil. Há dois anos eu não fazia uma visita, então resolvi ligar e eles marcaram a minha ida. Desta vez não fui pra ficar internado, apenas uma revisão. No primeiro dia fiz alguns exames: colhi sangue para os exames laboratoriais, fiz um ultrassom do aparelho urinário e o pior exame do mundo, a terrível urodinâmica (quem já fez sabe do que estou falando). Resultados normais, nenhuma grande novidade.
No dia seguinte a consulta médica, decidimos manter a mesma conduta no tratamento e houve apenas uma ressalva: resolver a questão da fratura que ainda tenho no fêmur direito (que mesmo após três anos, ainda não consolidou). Antes disso, não posso voltar ao Sarah. Agora não tem jeito, vou ter que passar por mais uma cirurgia.
Enfim, o mais importante não é isso. Quero mesmo é comentar a respeito das lembranças que essa visita me trouxe. Depois da urodinâmica, sentado no corredor a espera de alguém que fosse me levar para os próximos exames, conheci uma paciente que estava ali esperando pra ser atendida. Ela tinha apenas 10 meses de lesão e aquela era sua primeira estada no Sarah. Vi-me novamente na situação dela; recém-lesado, perdido ali em um mundo novo, preso num corpo que já não me obedecia mais, com a esperança de que em breve tudo voltaria ao normal.
Pois é meus amigos, é duro. Os primeiros dias, os primeiros meses... o primeiro ano, talvez o ano mais importante do resto da minha vida. Tudo aquilo passou pela minha cabeça novamente: eu já venci esta etapa. Ela entrou pra fazer o exame e eu continuei esperando, torcendo pra que ela tivesse forças pra enfrentar a batalha que tinha pela frente. Fiquei com meus pensamentos e minhas lembranças.
Esperança renovada.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Keep walking


Engraçado ouvir isso de um paraplégico, né? Mas é o sentido da frase que conta. Sabe aquele ditado que diz: “Pra morrer basta estar vivo”? Pois então, acho que a coisa é bem por aí. Há pouco tempo comecei a treinar basquete em cadeira de rodas e lá conheci histórias muito diferentes entre si, mas cada uma com sua “tragédia pessoal”.
Um dos meus companheiros foi vítima de bala perdida aos nove anos quando brincava na porta de casa. Cara, você já se deu conta do que é isso? O moleque era uma criança, mal tinha deixado de molhar as calças e, de uma hora pra outra, acabou ficando paraplégico. A adolescência por si só já é uma fase complicada, imagine como foi enfrentar todas as dúvidas e inseguranças desse período numa situação completamente diferente dos amigos, ainda mais num momento em que tudo o que queremos é nos sentir parte de um grupo, estar integrado. Deve ter sido dureza.
Lá cada um tem sua história, alguns são vítimas da pólio, outros sofreram acidentes automobilísticos, dois ou três amputados, enfim, vários casos diferentes, cada um mais estropiado que o outro. Todos sofreram mudanças bruscas nas suas vidas e seguiram em frente, como eu estou tentando fazer. O mundo não vai parar pra que eu resolva meus problemas, nem você os seus.
Lá se foram três anos, e eu continuo aqui. Às vezes fraquejo, mas reúno forças; penso em desistir, mas continuo lutando; penso em parar, mas sigo em frente; me sinto quebrado, mas junto os cacos e bola pra frente. Estou aprendendo bastante com aquele monte de aleijados, principalmente a fazer piada da própria desgraça.No fim das contas temos que fazer como o velho Johnny, meu companheiro de aventuras: Keep walking! (Que no meu caso seria Keep riding, ou coisa parecida).
Obs.: Antes que alguém se pergunte, meu acidente não foi causado por bebida. A figura é apenas um toque de humor negro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Vagas reservadas

Hoje fui almoçar no shopping e, pra variar, encontrei vários carros parados nas vagas reservadas sem a devida identificação. Será que as pessoas desse Brasil nunca vão respeitar? Bem, fica aí uma sugestão pra ajudar na conscientização dos "cidadãos":

sábado, 8 de agosto de 2009

Minha vida é uma adaptação.

Não sou mais como antes, porque já não tenho a mesma autonomia sobre meu corpo. Ele não me obedece e é difícil conviver com isso, nossa relação já não é mais de cumplicidade, ele não responde aos meus comandos e tampouco me avisa o que acontece com ele, não nos comunicamos muito bem. A cumplicidade de antes se transformou num conflito, e hoje existem apenas alternativas, adaptações para tornar essa convivência mais pacífica.
Como não ando com minhas próprias pernas, dependo da cadeira de rodas pra me deslocar de um lugar para outro. E o que é a cadeira, senão uma adaptação? Uma adaptação feita para suprir a necessidade que temos de nos locomover. Quando não estou na cadeira ainda consigo caminhar um pouco, com a ajuda de um andador (ou muletas) para me ajudar a manter o equilíbrio, e uma órtese que me ajuda a fixar a perna direita, já que não a movimento. São apenas adaptações, e, assim como essas, existem muitas outras.
Elas estão por todo lado. A cadeira de rodas, o andador, as muletas e a órtese me ajudam na locomoção, uma cadeira de banho permite que eu use o chuveiro, existem adaptações para que eu use o banheiro e faça minhas necessidades e tantas outras para as mais diferentes ocasiões. Hoje, a minha casa (a casa dos meus pais) está toda adaptada às minhas limitações, só assim eu posso ser independente aqui dentro. As adaptações estão por todo lado, são tantas que às vezes me pergunto se não me tornei uma delas, uma adaptação daquele Ronald de antes do acidente.
No fundo ainda sou o mesmo, apenas dependo delas pra conviver com minha deficiência. Às vezes quero ver-me livre, fingir que as adaptações não me são necessárias. Elas não me pertencem, não fazem parte de mim, mas hoje eu não consigo viver sem elas. As adaptações me perseguem, elas estão por todos os lados, preenchendo lacunas que se fizeram presentes e me impedem de comandar meu próprio corpo. Eu, que sempre busquei ser auto-suficiente, que sempre prezei pela minha independência, hoje me vejo dependente de uma parafernália pra conseguir realizar tarefas corriqueiras.
Estarei livre um dia? Acredito que sim, e é por isso que eu luto, mas por enquanto só me resta seguir em frente, não posso desistir. Vou tentar enquanto tiver forças, mas por hora tenho que me acostumar. Minha vida é uma adaptação, e eu preciso me adaptar a ela.