quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Sebastian. O elo com o Divino.


Já era quase meio dia quando eu chegava em casa. Parei o carro na frente do portão da garagem, que está quebrado, e liguei pra que alguém viesse abri-lo pra mim. Meu pai atendeu e se prontificou. Dois homens esperavam que alguém viesse atendê-los junto a uma moto na entrada de casa. O mais velho me viu e perguntou: "Você é o dono de Sebastian? Foi você que eu vi ontem passeando com ele?".
"Não, é o meu irmão. Vou tentar falar com ele."- respondi me referindo ao meu irmão Leonardo, que é o "pai" de Sebastian.. Ele olhou pra dentro do carro e perguntou: "Isso aí do seu lado é uma cadeira? É pra você?". Respondi que sim, que era cadeirante. Nessa hora meu pai abriu o portão e cumprimentou o rapaz, já sabia que ele estava ali pra ver o cachorro e meu irmão Guilherme, que passeava com Sebastian ontem, já vinha saindo pra mostrá-lo ao rapaz.
Entrei com o carro, montei a cadeira e fui lá ver do que se tratava. Entre elogios a Sebastian, ele apresentou-se e ao filho, que adora cachorros. Olhou pra mim e perguntou: "Quantos anos você tem?". Respondi que tinha 30 anos. Pausa dramática... "Você crê que Nosso Senhor Jesus Cristo pode te levantar daí?". Pronto, minha experiência já me dizia onde aquela conversa ia parar.
Nesse momento meu pai, católico praticante, tomou a frente: "Não, ele é ateu!" * - enquanto eu só tive tempo de balançar a cabeça em negativo. Pensei na mesma hora: "Agora fodeu!". Sofri um olhar que era um misto de pena e reprovação, achei engraçado e comecei a ouvir o testemunho. Ele e o filho são adventistas do sétimo dia, dizia-me que fora curado de AIDS, contraída quando teve relações sexuais com trinta e duas mulheres sem camisinha no prazo de um ano, mas no total tinham sido mais de duzentas, no que ele chamava de vida pregressa. Nessa hora quase parei a conversa e pedi um autógrafo, mas me contive.
Pensa que acabou por aí? Ele também foi curado de um câncer no reto, época em que defecava pus e fezes. Pra provar que falava a verdade retirou da mochila que o filho carregava uma garrafinha de água e dois rolos de papel higiênico, aquilo servia pra que ele se limpasse a toda hora, porque ele defecava sem controle. Exibiu as provas, como se aquilo provasse alguma coisa. Mas uma dúvida me corroía: "Se ele já estava curado, por quê andar com aquilo na mochila?" Pela segunda vez me contive.
 Mas os milagres não acabavam: "Tentaram me matar sete vezes. Em uma delas o rapaz me disse: 'Eu cheirei duas tiras de cocaína pra matar você, mas não sei por quê eu não matei'". Agora a bagaça ficou séria, como eu podia contestar uma coisa dessas? Por dentro eu achava engraçado, mas sabia que não adiantava argumentar com esse tipo de pensamento. Meu irmão, também cético, já tinha saído no começo da conversa e perdeu todo o testemunho. Meu pai, que acredita nesse tipo de sinais, ouvia atentamente. Chegou a contar pro rapaz um episódio que tinha acontecido comigo há quase três anos, quando saía do centro médico que tem aqui perto de casa com minha mãe; e que ele acredita também ter sido um sinal. Se você quiser, vale a pena dar uma lida aqui.
Enfim, o cara me deu um presente, um DVD com dez pregações de doze minutos cada e pediu que as ouvisse. "No primeiro - ele dizia -, Satanás vai querer lhe afastar e você vai sentir sono. Mas veja todos que você vai entender". Aceitei o presente de bom grado, conforme a educação que papai e mamãe me deram (que menino fofinho!), mas, sinceramente, vocês acham que eu vou assistir? Quem quiser é só dar um grito que eu envio uma cópia, o frete é grátis, só vou precisar de uma pequena contribuição em dinheiro para a obra da igreja (UAHAHAHAHA - esfregando as mãos com uma voz maléfica). Após várias investidas, me mantive irredutível, mas ele tentava me convencer de que tudo era um sinal, que Sebastian tinha sido o elo entre mim e ele, ou entre mim e o Senhor. "Será que meu irmão batizou Sebastian em homenagem a São Sebastião?".


"Santo cachorro, Batman." Diria o Robin
 Mais uma tentativa:
- Você não queria estar de pé? Agora passou ali uma cocota gostosa (cocota é ótimo hehehe), você não queria estar aí na cocotagem?
- E quem disse que só por causa da cadeira de rodas eu não estou?
Ele fez uma pausa pra reflexão e disse:
- Agora eu vou ser grosso com você, mas grosso no sentido de sincero. Vou agredir você, agredir com a palavra. É o chicote da palavra (adorei a expressão): Não seja hipócrita, você não queria estar de pé?
- Queria, mas tive que aprender a conviver com a realidade que eu tenho hoje. Não sou hipócrita, mas a vida que eu tenho hoje é essa e a gente tem que aprender a conviver - respondi com toda essa calma que Deus me deu, com o perdão da ironia.
Esse foi o único momento que ele foi um pouco indelicado, talvez porque eu me mantive irredutível e tinha argumentos pra contrariar tudo o que ele falava. Mas a essa hora eu já achava tudo engraçado.
Pra que não fique nenhum mal entendido, não quero desrespeitar a crença de ninguém. Respeito a de todos e acho que todos devem respeitar a minha, ou a falta dela. É desnecessário querer impor a verdade em que se acredita. Sei também que é da doutrina de algumas igrejas que os seus fiéis "espalhem a palavra" e convertam tantos quanto forem possíveis à palavra do Senhor, portanto vejo esse tipo de atitude como boas intenções. O rapaz, do qual não me lembro o nome e, se lembrasse, também não iria expor, não se colocou como agente da cura, insistiu que eu posso me curar pela mão de Deus. Foi muito gentil e disse que ia orar por mim, ao que agradeci prontamente. Me disse que ficasse com Ele e se despediu. Na hora do almoço eu pedi a meu pai que não alimentasse este tipo de coisa quando acontecesse de novo. "O que eu ia fazer? Ser grosseiro com o rapaz?". "Não, como eu disse: só não alimente".
Sebastian, me desculpe se tirei o foco da atenção de cima de você, mas sabe como é... A gente tem que encarar as coisas com bom-humor, é isso que eu faço.



"Que a Força esteja com você!"


* Só pra constar, não me considero ateu, na verdade não tenho uma opinião formada a respeito, mas me declaro um agnóstico convicto.

Beijo nas crianças. Aquele abraço.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Avaliação no Sarah Lago Norte

Depois de um bom tempo sem passar pelo Sarah, estive lá no mês de julho. Como sou paciente do Sarah Brasília, liguei pra eles e pedi uma consulta porque queria conversar sobre alguns aspectos da minha reabilitação, em especial com relação à bexiga neurogênica e espasticidade. Pois bem, fiz os exames, conversei com o médico e decidimos por mudar algumas coisas. Pra começar, voltei a tomar um anticolinérgico (medicamento que "acalma" a musculatura vesical pretendendo diminuir as contrações involuntárias da bexiga) e tive que aumentar o número de cats (abreviação de cateterismo vesical, que é um procedimento normal em casos como o meu).

Área externa do Sarah Centro 

 Sala de espera para consultas e alguns exames no Sarah Centro

 Transporte que leva os pacientes do Centro para o Lago Norte.

No fim da consulta resolvi conversar com o médico a respeito da possibilidade de uma passagem pelo Sarah Lago Norte. Pra quem não sabe, em Brasília o Sarah tem duas unidades: Centro e Lago Norte. O Sarah Centro tem mais cara de hospital, recebe muitos pacientes com lesões recentes ou que ainda estão no início do processo de reabilitação. No Lago Norte ocorre uma etapa mais avançada desse processo, não é um hospital, serve mais como um treino avançado para pacientes que querem se tornar ainda mais independentes e adequar-se melhor à sua realidade.

Área externa de uma das instalações - Lago Norte

É uma instituição que tem um pouco de cara de colônia de férias, os pacientes treinam de acordo com a sua rotina diária, praticam esportes e tentam se tornar mais independentes. Ir pro Lago Norte é uma ótima opção para um cadeirante que pretende morar sozinho, por exemplo. Foi lá que o ex-BBB Fernando Fernandes descobriu a canoagem, que acabou tornando-o bicampeão mundial. Lá não existem pacientes com problemas clínicos, quem vai está em plenas condições físicas, exceto pela deficiência, claro. Como eu tenho uma fratura no fêmur em decorrência do acidente que nunca consolidou, não me permitiam ir pra lá, mas agora isso já nem foi mais considerado. A haste e os parafusos estão fixando o osso e isso não representa nenhum perigo; então estou liberado.

Ginásio poliesportivo

 Se o CIEP tivesse um ginásio desses pra treinar...

 Cadeiras de basquete.

Aparelhos de musculação.

Pois bem, o médico do Centro enviou um e-mail para a equipe do Lago Norte, que entrou em contato comigo alguns dias depois e marcou uma avaliação para o último dia 13 de agosto. Acho que o objetivo dessa avaliação, que se resumiu a uma conversa de mais ou menos meia hora, era averiguar se eu tinha condições e o perfil para uma passagem por lá. Ficou combinado que eles entrariam em contato comigo para que eu fosse na segunda quinzena de outubro, mas ainda não sei a data exata.

Fotos

 Mais fotos.

 E mais algumas.

Pra não ficar por menos, mais algumas.

O que eu espero dessa passagem? Nenhum milagre, de fato, nenhuma grande revolução no meu caso, já passei dessa fase. Quero aprender a conviver melhor com a minha realidade, parafraseando Nelson Rodrigues: A vida como ela é. Vamos embora que o tempo não para.