sexta-feira, 29 de abril de 2011

Projeto Salve o Bumbum

Tá bom, tá bom. Eu sei que esse título é muito biba e vocês devem estar se perguntando: "O que deu nele? Será que ele mudou de time?". Não, não. De jeito nenhum. O título é pra falar de um assunto muito sério, que eu acho que não tinha comentado ainda no blog: as escaras.

"Escaras são feridas que surgem na pele quando a pessoa que permanece muito tempo numa mesma posição. É causada pela diminuição da circulação do sangue nas áreas do corpo que ficam em contato com a cama ou com a cadeira. Os locais mais comuns onde se formam as escaras são: região final da coluna, calcanhares, quadril, tornozelos, entre outros."

Pessoas com lesão medular têm uma grande tendência a desenvolver escaras por passarem muito tempo sentadas e pela diminuição ou ausência de sensibilidade em parte do corpo. Meu amigo Diel, fundador do CIEP, nosso time de basquete em cadeira de rodas, é quem mantém o time ativo. É o cara que corre atrás de apoio, locais para treino, materiais, etc. Ele vem há algum tempo tendo problemas recorrentes com escaras. E depois que a pessoa tem escaras pela primeira vez, a pele fica mais fina e suscetível a tê-las novamente, além de ser de difícil cicatrização. Daí, já viu né? O problema vira um ciclo vicioso.
Aí eu resolvi fazer uma campanha pra comprar uma almofada Roho pra ele, nascia o projeto SALVE O BUMBUM DO DIEL (brincadeiras a parte rsrsrs). Sem querer fazer propaganda, a Roho possui um sistema de células de ar independentes que aliviam a pressão e previnem escaras. O problema é que a almofada é muito cara e nem todo mundo tem condições de comprar. Falei com algumas pessoas e conversei com meus pais, juntamos contribuições e aproveitamos a viagem a São Paulo pra comprar a almofada pra ele na Reatech (feira internacional de tecnologias em reabilitação, inclusão e acessibilidade), onde os produtos costumam ser um pouco mais baratos.


Ontem fui com alguns amigos fazer uma visita e entregar a Roho (ele ainda não sabia). Conversa vai, conversa vem, eu falei: "Eu fiz um projeto chamado Salve o Bumbum do Diel, falei com algumas pessoas e consegui comprar uma Roho pra você". Ele ficou sem jeito, não quis acreditar e fez até menção de não aceitar o presente. Mas não tinha mais o que fazer, a almofada já tinha sido comprada e eu saí do quarto dele e fui até a sala pegar a caixa pra entregar em mãos. Diel ficou nervoso, a pressão subiu, ele pediu um café pra esposa e demorou um pouco até conseguir falar.


Passado o momento mais crítico, continuamos conversando sobre algumas coisas do CIEP com a nossa nova técnica, Wanessa, que também estava presente. A missão estava cumprida. Almofada entregue e todos satisfeitos com a novidade.
Agora é isso aí Diel, cuidar dessas escaras pra ficar logo 100% e sentar no fofinho (uuuiiiiiii) pra que elas não voltem. Continue correndo atrás pra manter o time do CIEP em atividade e cada vez mais forte. Força na peruca!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Aos olhos dos outros

Outro dia eu conversava com uma amiga que sofreu uma lesão medular há pouco tempo. No reveillon desse ano ela voltava de uma festa e sofreu um acidente de carro, lesionando a medula. De um tempo pra cá estamos conversando e eu tenho dado uma força nesse momento delicado.
 Essa fase de adaptação é muito difícil e uma das coisas mais complicadas é se acostumar com a sua "nova imagem". Sim, porque você passa a se ver de maneira diferente e é difícil encarar a cadeira de rodas como algo natural, olhar no espelho e se reconhecer ali é um desafio. Depois de um tempo no hospital chega a hora de voltar pra casa, é quando realmente cai a ficha: "Minha vida mudou!".
Aí a gente começa a encarar a mudança na rotina, na qualidade de vida. Remédios, sonda, fisioterapia e visitas ao médico se tornam comuns. E chega o dia de encarar a rua. Ela me contava que foi ao shopping essa semana, foi a primeira vez que saiu em público depois do acidente. "Não gostei das pessoas me olhando. Chorei!".
É dificil ser o alvo dos olhares, sentir-se diferente e chamar atenção por isso. As crianças, por exemplo, não escondem a curiosidade, mas esse é um sentimento legítimo, de quem não entende direito o que aquele cara ou aquela moça está fazendo sentado(a) naquela cadeira. Seu olhar ainda não está contaminado de preconceito, de falsos valores e concepções equivocadas, eu até brinco com as crianças, a mim seus olhares não incomodam.
Lembro das primeiras vezes que me dei conta dessa realidade, de sair na rua e encarar conhecidos e desconhecidos sob uma nova perspectiva, vivenciar situações com as quais eu estava acostumado de uma forma diferente, sentado numa cadeira de rodas. Até hoje, quase cinco anos depois, ainda encontro alguma dificuldade.
Eu falei pra ela e repito aqui. A gente precisa aprender a ignorar os olhares, colocar a nossa atitude acima do que as pessoas estão pensando e simplesmente seguir em frente. Acho que quando entendi isso tudo ficou mais fácil, os olhares até mudaram. Levantar a cabeça e olhar as pessoas nos olhos faz toda a diferança. Os olhares de pena, admiração, estranhamento e curiosidade ainda existem, mas eu passo por cima deles com as rodas da cadeira.
Tem muita gente que enfrenta dificuldades e ainda encara a realidade de peito aberto. A gente tem que estudar, trabalhar e se divertir, interagir com as pessoas por mais difícil que seja nossa situação. Não vou ser hipócrita de dizer que a minha realidade é maravilhosa e que estou satisfeito com a forma que as coisas estão, mas também não posso ficar só lamentando.
Pra quem encara diariamente esses olhares não existe outra saída, é dar as caras na rua e mostrar que existe, que também faz parte desse universo. Só assim pra mudar a forma como somos vistos aos olhos dos outros.