quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Pelo coração dos cadeirantes.


Não, este post não fala de amor e romance envolvendo cadeirantes. Este é o título de uma matéria recém publicada na revista Runner's de novembro de 2013, que revela uma pesquisa inédita feita pela Unicamp exclusivamente com cadeirantes vítimas de lesão na medula espinhal, que é o caso deste jovem que vos fala.
Não é nenhuma novidade que a prática de exercícios físicos traz muitos benefícios à saúde de qualquer praticante, mas essa pesquisa fechou um pouco mais o escopo e analisou um grupo muito específico de malacabados: os lesados medulares.
Resumindo a história...Os pesquisadores avaliaram um grupo de cadeirantes que jogavam regularmente basquete, tênis, rúgbi ou handebol há pelo menos um ano e os resultados foram pra lá de animadores.


Os números conhecidos indicavam que de 30 a 50%  de quem sofreu lesão na medula apresentava algum problema cardíaco após dez anos do acidente, na população geral esse índice fica entre 5 e 10%. Sentiu o drama? A boa notícia é que, mesmo com a limitação dos movimentos, no grupo de cadeirantes ativos o coração trabalha com mais vigor, bombeando mais sangue e oxigênio para o corpo todo, além disso há uma escassez de placas de gordura nociva acumuladas em seus vasos sanguíneos.


Agora o mais interessante. Os cientistas notaram que entre os indivíduos com lesão medular em geral havia um espessamento da parede das carótidas, artérias situadas no pescoço que levam o sangue para o cérebro, o que favoreceria o aparecimento de placas ali. Mas entre os que praticavam esportes, o estado dessas artérias ficava dentro dos parâmetros normais.
Posso falar por experiência própria. Sempre pratiquei esportes, mas parei durante o processo de reabilitação. Quando voltei a praticar exercícios após a lesão medular, que no meu caso se deu com o basquete, não demorei a perceber os resultados. Houve uma melhora nítida na respiração, no equilíbrio, na força muscular... e por que não dizer também na autoestima, autoconfiança, nas relações interpessoais, etc. Hoje já não pratico mais o basquete em cadeira de rodas, mas continuo com as minhas atividades. Agora é a vez do paraciclismo, estou pedalando a minha handbike há mais dois anos.
Nós que fomos abatidos pela guerra estamos mais sujeitos a apresentar uma série de problemas de saúde, mas a boa notícia é que a prática regular de exercícios pode derrubar essa probabilidade a níveis muito mais baixos. E você, tá esperando o que pra se movimentar?

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Panamá é o canal.


Neste último dia 3, cheguei em Aracaju de uma viagem que fiz ao Panamá. A oportunidade surgiu porque o marido da minha prima está trabalhando lá e ela tem ido visitá-lo periodicamente. Desta vez o irmão dela também iria e me convidou pra acompanhá-los. A curiosidade pra conhecer o Panamá era grande e resolvi embarcar. Somado a isso, um grande amigo da época de colégio, Paulo, que hoje é engenheiro, está morando lá há alguns anos e já tinha me feito alguns convites. Mais um motivo pra viajar. Então arrumei as malas e planejei todos os detalhes. Pois bem, com tudo pronto partimos para o Panamá na madrugada do dia 25 de outubro.
Chegando lá alugamos um carro (que já estava no nosso orçamento), compramos um chip e ativamos uma linha local no meu celular (US$ 25,00) e partimos pro hotel. Tá aí uma dica que eu daria pra todo mundo: ativar uma linha telefônica local. Isso nos permitiu fazer e receber ligações, ter acesso à internet e, o mais importante, usar a rede 3G pra navegar pelo GPS do celular (o que nos economizou US$ 200,00 de aluguel do GPS da locadora de carros). Agora vamos ao que interessa.
O hotel em que ficamos, Torres de Alba, tem apartamentos no estilo Flat: sala, cozinha com área de serviço, banheiro e quarto. Era bem espaçoso; acessível, mas não adaptado. Eu já sabia disso com antecedência, mas como as portas eram largas e o banheiro espaçoso não tinha grandes problemas, eu me viro razoavelmente bem nessas situações. Foi só pedir que o hotel me arrumasse uma cadeira pra tomar banho e, pra minha surpresa, eles já tinham uma cadeira específica (infelizmente não tirei fotos desses detalhes).
Logo que saímos do aeroporto percebemos como a Cidade do Panamá é rica. Arranha-céus ocupam a vista, prédios de arquitetura ousada, uma bela estrada (com pedágios a um preço justo) nos conduz do aeroporto de Tocumen até o centro da cidade. A primeira impressão do trânsito foi terrível, é o mais louco que já conheci. E olhe que, antes do meu acidente, eu morei em São Paulo por quatro anos. Mas com todos os seus milhões de carros e aqueles motoboys malucos, o trânsito da nossa maior cidade parece brincadeira de criança. A regra é: não existe regra. As ruas são bem sinalizadas, placas bem colocadas, sinais de trânsito em pleno funcionamento... o que não funciona é o bom senso dos motoristas, pedestres, etc. Motoristas fecham cruzamentos, não respeitam a preferencial, pedestres andam pelo meio da rua, atravessam correndo sem aviso... E as buzinas, ah, a buzina é o esporte nacional. Uma sinfonia completa. Pra piorar o trânsito, a cidade é um canteiro de obras: pontes, viadutos, avenidas e metrô estão sendo construídos por toda a cidade. Uma curiosidade: alguns locais da cidade têm nomes, digamos, bastante sui generis, a exemplo o Distrito de Boquete e da Via Porras, que, felizmente, ficam bem distantes um do outro.
Logo que encontrei Paulo, comentei a respeito do trânsito e ele me explicou que desde que o Panamá assumiu o controle do canal, o volume de dinheiro que entra é muito grande, os caras não sabem o que fazer com tanta grana, mas a civilidade não cresceu na mesma medida que o desenvolvimento econômico, então existe essa discrepância entre a educação do povo e a economia crescente, o que reflete também no trânsito.
Mas e a questão da acessibilidade, como é a realidade de quem tem algum tipo de deficiência, como essas coisas são encaradas no Panamá, será melhor que no Brasil? Pra falar a verdade, não. A minha experiência mostrou que, apesar de termos que melhorar bastante, ainda estamos um pouco à frente, tanto no aspecto da estrutura quanto da consciência social. Visitei vários lugares, de restaurantes à baladas, de parques ao centro histórico, de shoppings a casas de massagem - hehehe essa última é brincadeira, mas até que não seria má ideia - e enfrentei vários perrengues com a falta de acessibilidade. Assim como aqui, nem todos os lugares têm rampas de acesso, muito menos banheiros adaptados, nesses casos sempre rola uma tensão, mas um improviso aqui, um jeitinho ali sempre resolvem o problema.
Uma coisa me chamou bastante atenção. Eu não vi pessoas com nenhum tipo de deficiência atuando diretamente na sociedade; seja trabalhando, seja passeando (dando a cara pra bater na inacessibilidade da rua, como eu estava fazendo). Na minha condição, leia-se cadeira de rodas, raras exceções: alguns nos shoppings da cidade (sempre sendo empurrados em cadeiras pré-históricas), outros pedindo esmolas nos cruzamentos, entre os carros. Realidade que, confesso, me deixou um pouco triste.
Diante dessa realidade eu não passei despercebido em lugar nenhum. A presença de um jovem de aparência saudável tocando sozinho a cadeira de rodas, subindo e descendo rampas e pequenos degraus, andando entre as pessoas "normais" parecia causar um estranhamento muito grande. Aqueles olhares, indiscretos na sua maioria, poderiam causar um desconforto muito grande em alguém que acabou de se acidentar e ainda está pouco à vontade nessa situação estranha; mas no meu caso, há mais de sete anos nessa luta, já não causam nenhum incômodo.
O mais interessante foi a comoção que a minha presença causou na balada. Meu amigo Paulo e eu fomos ao Hard Rock Hotel, a princípio ficamos no mezanino onde tocava uma banda de rock muito legal. Lá eu já percebi alguns olhares de curiosidade, mas nada demais, a única que quebrou o "protocolo" foi uma moça que dançou comigo e nos apresentou suas duas amigas: "Mi nombre es Ronald, yo no hablo español muy bien, pero lo entiendo. Y podemos hablar en Inglés también". Ficamos lá, conversamos um pouco com elas e depois subimos pra baladinha que rola no 62º andar, na cobertura. Uma vista linda da cidade, toda iluminada, boa música, gente bonita... E mais olhares curiosos. Mas não demorou muito pra alguém vir falar comigo e me fazer mil perguntas: "Cuál es su nombre? De dónde eres? Qué le parece Panamá?". E eu lá, me achando a celebridade hehehehehehe. Paulo se divertia com tudo aquilo e à medida que o estado etílico ia aumentando, íamos fazendo novos amigos e meu espanhol parecia ficar cada vez mais fluente. Por que será?




No Steinbock, um pub de influência alemã onde bebemos várias... tá bom, vááááááárias cervejas de todo o mundo, os olhares de curiosidade também surgiram, mas um pouco mais discretos. A grande dificuldade de lá é que o banheiro não era adaptado e todos sabemos como cerveja é uma bebida diurética. A porta que dava para os banheiros era larga e eu chegava numa antessala de mais ou menos 1,5m x 1,5m, à minha direita o banheiro feminino, à frente o masculino, mas as portas eram muito estreitas. A solução foi deixar Paulo de guarda na porta de entrada enquanto eu fazia o cat (vulgo, xixi pelo canudinho) na antessala com a bexiga quase explodindo. Detalhe, ele não foi um segurança muito eficiente e, em determinado momento abandonou seu posto, um cara abriu a porta (eu estava de costas) e saiu constrangido pedindo desculpas. Mas a alta concentração de álcool que corria em minhas veias não me permitiu ficar envergonhado. E viva a cerveja!


Mas nem todos os lugares estavam despreparados para receber pessoas com deficiência, alguns, a exemplo da Eclusa de Miraflores, onde tem um prédio pra receber os turistas que querem conhecer o Canal do Panamá, estão muito bem preparados. E vale mesmo a pena conhecer o canal, é uma obra de engenharia impressionante. O prédio é equipado com vagas reservadas, rampas, elevador, etc. A visita completa custa US$ 8,00 e começa com um filme em 3D que conta a história do canal, da fundação aos dias de hoje. Depois os turistas se encaminham ao mirador e podem ver o mecanismo das eclusas em funcionamento, com direito àqueles navios enormes passando apertadinhos pelo canal.



Mas não dá pra esperar que tudo seja adaptado, que tenha rampas e elevadores em todo canto. No último dia resolvemos fazer um passeio de barco pelo pacífico até a ilha Taboga. Na marina foi fácil chegar até o píer onde o barco atracou, mas pra descer pro barco não teve jeito, só sendo carregado, mesmo. O problema é que sendo pego assim nos braços a gente apega fácil, né? (uuuuiiii) E no barco também não tinha moleza, como era grande até tinha um banheiro, mas quem disse que dá pro aleijadinho usar? A solução foi fazer o cat escondidinho; e com o balanço do mar, que estava um pouco agitado foi ainda mais difícil, mas tudo se resolveu.



Terminado esse passeio, foi só voltar pro hotel, tomar banho, fechar as malas e pegar o caminho de volta. O Panamá, assim como o Brasil, ainda não é muito amigável aos quebrados, malacabados pela guerra, mas existem sim alternativas. Dá pra ver que já existe uma nova consciência se formando também por lá. Muitos lugares já apresentam rampas (nem sempre bem feitas), há bastante vagas reservadas, que pra minha surpresa pareceram ser mais respeitadas que no Brasil e por aí vai. Cheguei a encontrar um banheiro adaptado fechado por dentro no shopping e tive que procurar um rapaz dos serviços gerais, que pegou um rodo passou por cima da porta e a destravou. O Panamá se revelou um ótimo destino para passeio e também para compras (de roupas e eletrônicos principalmente), as barreiras estão lá, mas não são intransponíveis. As coisas são assim: Quem quer, dá um jeito; quem não quer, dá desculpa! O passeio foi muito bom, se você quer se divertir, Panamá é o canal!