segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dependência

Estive refletindo um pouco a respeito da dependência, porque esse é um dos aspectos que mais me incomodam na lesão medular. Do ponto de vista de um lesado medular eu sou extremamente independente, realizo todas as minhas atividades da vida diária sozinho, faço todas as minhas transferências, dirijo meu carro, etc. Mas por mais independente que se torne, o lesado medular passa a depender de ajuda pra realizar tarefas simples que antes realizava sozinho.
Eu sempre prezei pela minha independência e por isso tive (e ainda tenho) dificuldade pra aceitar ajuda, principalmente pra realizar tarefas simples, prefiro tentar sozinho e pedir ajuda quando realmente não consigo. No blog da minha amiga Juliana, li uma frase interessante uma vez: "Lesão medular é pós-graduação em humildade". E, quer saber? Ela está coberta de razão. A lesão medular te ensina (melhor seria dizer: te força a aprender) a aceitar ajuda para aquelas pequenas atividades do seu dia a dia; aquelas que você conseguia fazer sozinho, mas que agora...
Confesso que ainda tenho um pouco de dificuldade, acho uma merda depender dos outros, mas já melhorei bastante. É verdade que sou bastante independente pra um cadeirante, especialmente um que tenha uma lesão tão alta quanto a minha (C7), mas ainda não acho suficiente. Aprendo dia após dia a conviver um pouco melhor com essa dependência, mas sinto falta da autonomia que tinha antes da lesão. Sinto falta de trocar a lâmpada que fica no teto, caminhar na areia fofa da praia, carregar uma caixa nos braços, subir escada degrau por degrau... Sinto falta da minha total independência.
Não que depender de ajuda seja indigno ou vergonhoso, de forma alguma, mas às vezes é chato precisar ser carregado, por exemplo. Sei que minha família, meus primos, meus amigos e as pessoas em geral (pelo menos a maioria) estão sempre dispostos a me ajudar e fazem isso com a maior boa vontade, mas eu gostaria de poder fazer sozinho. É importante pra mim conseguir ser o mais independente possível e, quando eu nego ajuda, sempre agradeço a boa intenção, mas é porque acredito que vou conseguir sozinho. E acredito que é assim com todo lesado medular, porque todo mundo quer se sentir útil, independente, autônomo.

4 comentários:

  1. Cara, eu acho que conosco, os malacabados, essa "dependência" é mais explícita que a de outras pessoas. Contudo, não acho que seja maior nem menor. Se vc fizer uma reflexão maior, vai perceber que tb há gente que depende de vc: das suas palavras, da sua atenção, do seu trabalho, das suas ideias, etc. Sou um cara irriquieto e acabei contruindo uma rede de interesses e responsabilidades tão grande que acho que mais dependem de mim do que eu dos outros. Contudo, isso não é nada. O bacana na vida, a meu ver, é ter mais consciência do todo e menos de si mesmo!!! Grande abraço

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  2. Faaala Jairão! Eu entendo o seu ponto de vista e concordo com muito do que vc diz. Mas acho que essa minha dificuldade em aceitar ajuda é uma característica própria, além do mais, eu passei 24 anos de minha vida com um nível de independência muito grande e, de repente, as coisas mudaram. Imagino que seja diferente pra vc que convive com isso há muito mais tempo. Abraaaço

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  3. Depois que eu li o seu ressentimento sobre ser dependente,me senti bem melhor,pois sou totalmente dependente,inclusive para funções fisióloigicas.
    Para evacuar alguém tem de enviar o dedo no meu ânus,vulgo "toque".
    Agora o que eu mais queria era poder trocar uma lâmpada,carregar uma caixa,etc.Isso é bem melhor do que o "toque".

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  4. É meu caro amigo anônimo, realmente é muito difícil lidar com a dependência recém-adquirida. Mas temos que tentar conviver com a situação da melhor maneira possível, eu tento fazer isso dia após dia, e sei como é complicado, especialmente quando são coisas que envolvem nossa intimidade, como as funções fisiológicas.
    Espero que vc continue acompanhando e comentando os posts, acho que dividir essas dificuldades nos ajuda a enfrentá-las. Um abraço

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