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Diário de um intercambista malacabado: Goodbye, San Francisco. Olá, Aracaju.

em 29 de outubro de 2017


Bom, já estou de volta há duas semanas depois de passar 33 dias nos EUA. Quando viajei e comecei esta série de textos a intenção realmente era fazer um diário, produzir um novo texto a cada dois ou três dias contando as novidades da minha viagem. A aventura de um malacabado tentando se virar por conta própria em um país estrangeiro.
Realmente não consegui cumprir nem de perto esse cronograma, não levei computador porque a intenção era aproveitar os preços mais em conta para comprar um novo nos EUA, e escrever textos longos no celular é complicado. Na escola eu tinha acesso aos computadores do laboratório de informática, mas geralmente ao fim das aulas eu só queria sair pra almoçar. No hostel onde estava hospedado havia um computador no lobby à disposição, mas eu não queria ficar escrevendo por lá com o vai e vem de um monte de gente, então ficou pra depois. Aqui vai um pequeno resumo da aventura de um intercambista malacabado.
Pra começar: não foi fácil! Mas já falei aqui outras vezes: "Quem quer, dá um jeito. Quem não quer, dá desculpa". Como a certeza da viagem só aconteceu na última hora, durante a última semana, não pude planejar tudo como gostaria. Com mais tempo hábil eu teria planejado os melhores trajetos, as rotas de ônibus e metrô, os passeios que gostaria de fazer, onde e o que gostaria de comprar e mais uma infinidade de coisas. Mas quando não dá pra planejar, seguimos a lei do improviso.
Nos primeiros dias fiz o trajeto até a escola de ônibus, pegava o primeiro a 50 metros do hostel e um segundo que me deixava a pouco mais de uma quadra do destino. San Francisco é uma cidade de altos e baixos e a minha preocupação era que tivesse uma subida no meio do caminho. Depois percebi que a maior parte era uma descida suave e o restante era predominantemente plano. Então passei a ir rodando pra aula e pegava apenas um ônibus na volta, que subia a rua e eu só precisava descer um quarteirão pra chegar em casa.
As calçadas da cidade seguiam um padrão, havia rampas em todas as esquinas (a grande maioria bem feita) e as adaptações dos ônibus funcionavam perfeitamente. Os motoristas eram em grande maioria bastante solícitos e bem preparados, então não tive problemas. O sistema de trens e metrô também funcionava muito bem, apesar de ser bem sujo. Não tinha graves problemas de acessibilidade, mas geralmente havia apenas um elevador por estação, que estava sempre fedendo a mijo de mendigo. San Francisco tem muitos moradores de rua e acho que eles aproveitavam o ambiente reservado dos elevadores pra dar aquela aliviada. Felizmente não me deparei com nenhuma cagada. 💩💩💩
Rodar grandes distâncias sozinho pela cidade seria bem complicado, mas quem tem amigos tem tudo. Foi fácil me cercar de gente boa, amigos que estavam sempre dispostos a ajudar. Tinha brasileiros, japoneses, turcos, taiwaneses, italianos... Ao todo eram alunos de vinte e três nacionalidades na escola, todo mundo sempre ali pra dar uma forcinha quando eu precisasse. Claro que a ousadia de um cara na cadeira de rodas se virando sozinho por lá causava um certo estranhamento, mas ao conviver um pouco mais todos passavam a encarar a situação com naturalidade. Volta e meia eu ouvia aquele papo chato sobre ser um exemplo de superação e todo aquele blá blá blá que já conheço de cor e salteado. Mas a maneira que eu vejo as coisas é bem simples: eu tenho os meus problemas e as minhas dificuldades pra enfrentar a vida, mas dificuldades todo mundo enfrenta, uns mais, outros menos. A vida nem sempre é justa, mas é assim que ela é. A cadeira de rodas me impõe um série de limitações, mas o fato é que ela chama muita atenção, e talvez por isso desperte esse sentimento de admiração.
O meu curso de Business English (inglês para negócios) tinha aulas apenas pela manhã, então eu tinha as tardes livres pra fazer o que quisesse. E geralmente era um passeio com "ozamigos". Deu pra rodar bastante por San Francisco, conhecer os pontos turísticos, comer bastante junk food, visitar as cidades vizinhas... Não quero me alongar muito contando os detalhes de cada passeio, a intenção desse post não é ser um guia turístico para os malacabados que resolverem se aventurar por San Francisco, mas dividir um pouco da experiência enriquecedora que tive por lá. Como não sou um grande fã de fotos, não vou postar milhares de imagens aqui, mas quem tiver curiosidade pode dar uma olhada em alguns lugares que visitei no Instagram.
Por mais que um período de quatro semanas não seja longo o suficiente para uma imersão completa em um cultura diferente, dá pra aprender muita coisa se você souber utilizar o tempo que tem e mantiver a mente aberta. Viver a rotina de SF foi muito interessante, a escola ficava no coração do Financial District, bem no centro da cidade, onde as coisas acontecem. Era muito legal ir para a aula pela manhã vendo as pessoas indo trabalhar usando transportes bem alternativos. Gente vestida de maneira formal indo trabalhar de bicicleta, skate, patinete... Claro que havia bastante trânsito, muitos carros nas ruas, ônibus, bondes, mas muita gente preferia outras alternativas.
O convívio com alunos de tantas nacionalidades diferentes também foi muito legal. Ouvir tantos sotaques de várias partes do mundo me ajudou a melhorar bastante o meu entendimento da língua. Tanto que, às vezes, eu já me pegava pensando em inglês. Nas conversas com os outros alunos era sempre interessante trocar experiências sobre os costumes de cada país e aprender como cada cultura encarava assuntos diferentes. Um dos passatempos favoritos era ensinar alguns palavrões em português e depois ficar se divertindo com eles falando sem parar. Os japoneses, muito educados, achavam o máximo e sempre queriam aprender um novo. O preferido era, sem dúvida: "Puta que pariu!".
Foram quatro semanas vividas intensamente em San Francisco, na última eu já me sentia meio dividido, era um misto de emoções. De um lado aquela saudade que já vinha há algum tempo dando sinais de vida, do outro um pouco de tristeza, uma nostalgia antecipada por deixar pra trás uma experiência tão valiosa. Acho inclusive que as dificuldades inerentes à minha condição me fizeram valorizar ainda mais a oportunidade. O investimento financeiro é alto, claro. O investimento emocional, as expectativas criadas, também. Mas a experiência valeu todo o esforço para que desse certo. Antes de voltar pro Brasil ainda deu pra relaxar alguns dias em Miami na casa de um grande amigo, José Maurício, que fez questão de receber a mim e Alice na sua casa. Sim, a digníssima foi me encontrar em Miami e passamos uns dias passeando por lá.
O saldo final foi muito positivo. Volto dessa viagem com um entendimento mais amplo de mim e do mundo. Com mais segurança a respeito das minhas capacidades. Com mais amigos do que tinha quando fui e com a bagagem cheia de experiências enriquecedoras. Sim, o meu inglês está melhor, agora conheço algumas expressões que não conhecia, entendo um pouco melhor a linguagem técnica do mundo dos negócios. A princípio esse era o objetivo e estou feliz em tê-lo alcançado, mas o aprendizado foi bem maior que tudo isso. E essa certeza eu trouxe na mala.
Bola pra frente e até a próxima.

Diário de um intercambista malacabado: Lavando a roupa suja.

em 26 de setembro de 2017

"Lava roupa todo dia, que agonia
Na quebrada da soleira, que chovia..." 🎶🎶🎶

A música é "Juventude Transviada", de Luiz Melodia, e nada tem a ver com o tema deste post além dos dois primeiros versos. Mas, como já disse outras vezes, o blog é meu e eu faço o que eu quero.
Pois bem, nessa jornada de intercambista malacabado aqui na Califórnia tenho feito muita coisa além de estudar: passeio bastante, visito vários lugares, compro uma coisinha aqui outra ali... Os desafios são constantes. As ruas de São Francisco são bem preparadas: rampas em todas as esquinas, calçadas quase sempre padronizadas, transportes coletivos acessíveis (com direito a cheiro de mijo nos elevadores e plataformas do sistema de trens e metrô)... A geografia da cidade é que não ajuda muito, já que SF é cheia de altos e baixos e as ladeiras são inimigas mortais dos cadeirudos. Mas isso é assunto pra outra história.
Vamos em frente: apesar da minha disposição pra encarar as adversidades, tem uma coisa que eu não tinha me atrevido a fazer desde o meu acidente: lavar roupa suja (literalmente). Não que eu fosse um exímio lavador de roupas, na verdade, mesmo quando morava sozinho, tinha quem o fizesse por mim. Durante a maior parte do tempo que passei em São Paulo, a vida colocou no meu caminho uma senhora baixinha do interior de Pernambuco que atendia pelo apelido de Bibiu. Ela era esposa do zelador do prédio e prestava serviço como diarista para alguns dos condôminos, incluindo aquele moleque de mais ou menos vinte anos que morava no apto. 12. Me tratava praticamente como um filho, mas infelizmente nos deixou de forma precoce há algum tempo. Enfim, mesmo tendo a Bibiu cuidando de quase tudo pra mim, às vezes eu precisava fazer algumas coisas por conta própria, e isso podia incluir lavar algumas roupas.
Bom, anos e anos depois, o aleijadinho resolve procurar sarna pra se coçar e se mete numa de fazer intercâmbio sozinho. Hospedado num hostel que não tem serviço de lavanderia, apenas uma lavanderia comunitária, ele se vê na situação em que precisa lavar as suas próprias roupas. E agora, o que ele faz? Hora de usar os conhecimentos aprendidos nos primórdios do século 21...




Vai no Walgreens (uma espécie de farmácia em que se encontra absolutamente de tudo - coisa de americano), compra o que precisa, volta para o hostel, planeja passo a passo tudo o que precisa fazer (como todo malacabado esperto) e encosta o umbigo no tanque. Ou melhor, estaciona a cadeira do lado das máquinas.
Separa as roupas, abre as roupas, coloca as roupas na máquina, coloca a quantidade correta de sabão, fecha a máquina, seleciona o programa e manda brasa. Meia hora depois, abre a máquina, tira as roupas, abre as roupas, coloca na secadora, limpa o filtro da secadora, fecha a secadora, seleciona o programa e manda brasa. Quarenta e cinco minutos depois, volta, retira as roupas da secadora, confere se estão lavadas e secas... Sucesso!



Missão quase cumprida. Hora de voltar pro quarto, mas deu preguiça de guardar tudo agora. Ah, deixa pra lá! A roupa já está toda limpa e seca, depois eu dou um jeito nisso...
Beijo nas crianças! Em breve, cenas dos próximos capítulos.

Diário de um intercambista malacabado: O desafio do planejamento.

em 14 de setembro de 2017

É fato consumado! Pra tudo que vamos fazer na vida deve haver algum planejamento, pelo menos se você pretende fazer bem feito. Para malacabados, aleijadinhos e afins não é diferente. Nesse caso é ainda mais importante, é aí que a brincadeira fica séria.
Como já havia falado no post anterior, a grande dificuldade pra mim foi encontrar um lugar que pudesse me acomodar. E veja bem, a tarefa a princípio nem era das mais complicadas, porque a minha situação não exige necessariamente que o lugar seja adaptado, se ele for acessível eu já consigo me virar. E quando falo em acessível, basta ter uma porta que eu consiga entrar e um espaço razoável por conta da cadeira de rodas.
Depois de várias tentativas, mudanças de programação, busca de alternativas... encontramos aqui em San Francisco um hostel que poderia me hospedar. O quarto não é muito espaçoso, mas é o suficiente. Segue aquela linha que falei antes: não é adaptado, mas é acessível. Já o banheiro, grande terror dos cadeirantes, é bastante amplo e adaptado. Não têm uma cadeira de banho disponível, mas me arranjaram uma cadeira de plástico e, problema resolvido. Poucas coisas a melhorar.
Caso algum aleijadinho ousado como eu tenha a intenção de encarar um intercâmbio sozinho fica aqui a minha dica. O hostel que me hospedou é o Vantaggio, que fica na 505 O'Farrel Street, San Francisco. Já conversei com o pessoal aqui e eles têm dois quartos nessas condições. Não cheguei a ver o outro, mas deve seguir o mesmo padrão.
O café da manhã está incluso e os apartamentos são no estilo Studio: no quarto tem uma cama, um pequeno móvel para as roupas, uma pia, frigobar e microondas.
O único serviço é a limpeza dos quartos, que é feita uma vez na semana. A lavanderia fica à disposição dos hóspedes, que lavam sua própria roupa. Ainda não precisei utilizá-la, só estou hospedado há quatro dias, mas quando for necessário, naturalmente darei um jeito.
Pra melhorar a minha circulação no quarto pedi pra tirarem a mesinha de estudos, ela me impedia de chegar até o móvel pra guardar as roupas. Depois disso a situação ficou mais agradável.
Sem mais delongas, deixo aqui algumas fotos, os curiosos já vinham me cobrando.






Como havia dito, a mesa atrapalhava a circulação e pedi que fosse retirada.

Diário de um intercambista malacabado: De repente Califórnia.

em 11 de setembro de 2017

"Garota eu vou pra Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser star..." 

Alice já não aguentava mais me ouvir cantarolando essa música desde a última quarta-feira, quando, mesmo depois de muito planejamento, parecia que os meus planos de fazer um curso no exterior seriam desfeitos mais uma vez.
Sim, mais uma vez. Porque quando eu me acidentei, um dos planos que eu tinha para o momento era uma extensão universitária no exterior que, assim como muita coisa na minha vida, não se concretizou pelo mesmo motivo.
Pois bem, pouco mais de onze anos depois resolvi tentar mais uma vez. Eu já me sentia seguro o suficiente, independente o suficiente. Então comecei a planejar. Não que eu achasse que seria fácil, afinal essa palavra poderia ter sido riscada do dicionário da minha vida depois do dia 21 de julho de 2006.
O projeto inicialmente era o Canadá, por sugestão de Thayana, consultora online do STB (Student Travel Bureau), que argumentou que o custo seria menor por conta da diferença na taxa cambial (o dólar canadense é consideravelmente mais barato que o americano). Somado a isso, ela tinha acabado de planejar um curso pra uma moça que também é cadeirante e eu poderia ir pra mesma escola em Toronto.
Ela me disse que a escola e a equipe são muito solícitas e me conseguiriam uma acomodação acessível na cidade.
Mas sabe como é, né? Vida de aleijado não é fácil. No meio do caminho a Polícia Federal surge com a notícia da suspensão da emissão dos passaportes por falta de verba, isso porque cada cidadão que precisa tirar o documento paga uma taxa de quase 300 reais. Coisas do Brasil... Agora eu só podia esperar. Já tinha pagado o valor referente à matrícula e assinado o contrato, mas a efetivação estava condicionada ao passaporte e à acomodação.
Assim que o passaporte fosse emitido eles começariam a procurar um homestay pra me hospedar. Homestay é a modalidade de hospedagem em que famílias recebem estudantes de outros países em suas casas.
Após semanas de incerteza o passaporte finalmente saiu e a escola iniciou a procura.
Semana após semana eu buscava notícias, mas eles nunca conseguiam. Entramos no deadline da escola e na última semana antes do início do curso. Lá de Toronto a esperada boa notícia nunca chegava, então comecei a buscar outras soluções.
Entrei em contato com Mariana, uma amiga querida que mora em Vancouver, e pedi ajuda. Começamos a considerar outras possibilidades. Eu já andava desesperançoso e com raiva, depois de tanto planejamento a bendita lesão medular ia me fuder de novo. Férias programadas no trabalho, curso escolhido, planejamento feito, mas talvez isso não fosse o suficiente. Depois de tanta expectativa parecia que não ia dar certo.
Caroline, a gerente de Thayana no STB, já acompanhava o meu caso de perto e buscava alternativas. Eu achava que talvez não desse mais.
Mas eis que "De repente... Califórnia". Uma escola em San Francisco tinha um curso com uma carga horária que eu poderia fazer com o meu visto de turismo americano e, pasmem, uma residência estudantil próxima tinha condições de me receber. O curso ficaria um pouco mais caro, as passagens ainda precisavam ser compradas, detalhes que já tinham sido deixados de lado agora precisavam ser resolvidos. Foram três dias muito estressantes.
Mas nessa (tragi)comédia da vida aleijada não tem nada fácil. E agora eu tô aqui, na cama do quarto em San Francisco, escrevendo esse post gigante no meu celular e pensando: Chupa lesão medular!



Panamá é o canal.

em 19 de novembro de 2013


Neste último dia 3, cheguei em Aracaju de uma viagem que fiz ao Panamá. A oportunidade surgiu porque o marido da minha prima está trabalhando lá e ela tem ido visitá-lo periodicamente. Desta vez o irmão dela também iria e me convidou pra acompanhá-los. A curiosidade pra conhecer o Panamá era grande e resolvi embarcar. Somado a isso, um grande amigo da época de colégio, Paulo, que hoje é engenheiro, está morando lá há alguns anos e já tinha me feito alguns convites. Mais um motivo pra viajar. Então arrumei as malas e planejei todos os detalhes. Pois bem, com tudo pronto partimos para o Panamá na madrugada do dia 25 de outubro.
Chegando lá alugamos um carro (que já estava no nosso orçamento), compramos um chip e ativamos uma linha local no meu celular (US$ 25,00) e partimos pro hotel. Tá aí uma dica que eu daria pra todo mundo: ativar uma linha telefônica local. Isso nos permitiu fazer e receber ligações, ter acesso à internet e, o mais importante, usar a rede 3G pra navegar pelo GPS do celular (o que nos economizou US$ 200,00 de aluguel do GPS da locadora de carros). Agora vamos ao que interessa.
O hotel em que ficamos, Torres de Alba, tem apartamentos no estilo Flat: sala, cozinha com área de serviço, banheiro e quarto. Era bem espaçoso; acessível, mas não adaptado. Eu já sabia disso com antecedência, mas como as portas eram largas e o banheiro espaçoso não tinha grandes problemas, eu me viro razoavelmente bem nessas situações. Foi só pedir que o hotel me arrumasse uma cadeira pra tomar banho e, pra minha surpresa, eles já tinham uma cadeira específica (infelizmente não tirei fotos desses detalhes).
Logo que saímos do aeroporto percebemos como a Cidade do Panamá é rica. Arranha-céus ocupam a vista, prédios de arquitetura ousada, uma bela estrada (com pedágios a um preço justo) nos conduz do aeroporto de Tocumen até o centro da cidade. A primeira impressão do trânsito foi terrível, é o mais louco que já conheci. E olhe que, antes do meu acidente, eu morei em São Paulo por quatro anos. Mas com todos os seus milhões de carros e aqueles motoboys malucos, o trânsito da nossa maior cidade parece brincadeira de criança. A regra é: não existe regra. As ruas são bem sinalizadas, placas bem colocadas, sinais de trânsito em pleno funcionamento... o que não funciona é o bom senso dos motoristas, pedestres, etc. Motoristas fecham cruzamentos, não respeitam a preferencial, pedestres andam pelo meio da rua, atravessam correndo sem aviso... E as buzinas, ah, a buzina é o esporte nacional. Uma sinfonia completa. Pra piorar o trânsito, a cidade é um canteiro de obras: pontes, viadutos, avenidas e metrô estão sendo construídos por toda a cidade. Uma curiosidade: alguns locais da cidade têm nomes, digamos, bastante sui generis, a exemplo o Distrito de Boquete e da Via Porras, que, felizmente, ficam bem distantes um do outro.
Logo que encontrei Paulo, comentei a respeito do trânsito e ele me explicou que desde que o Panamá assumiu o controle do canal, o volume de dinheiro que entra é muito grande, os caras não sabem o que fazer com tanta grana, mas a civilidade não cresceu na mesma medida que o desenvolvimento econômico, então existe essa discrepância entre a educação do povo e a economia crescente, o que reflete também no trânsito.
Mas e a questão da acessibilidade, como é a realidade de quem tem algum tipo de deficiência, como essas coisas são encaradas no Panamá, será melhor que no Brasil? Pra falar a verdade, não. A minha experiência mostrou que, apesar de termos que melhorar bastante, ainda estamos um pouco à frente, tanto no aspecto da estrutura quanto da consciência social. Visitei vários lugares, de restaurantes à baladas, de parques ao centro histórico, de shoppings a casas de massagem - hehehe essa última é brincadeira, mas até que não seria má ideia - e enfrentei vários perrengues com a falta de acessibilidade. Assim como aqui, nem todos os lugares têm rampas de acesso, muito menos banheiros adaptados, nesses casos sempre rola uma tensão, mas um improviso aqui, um jeitinho ali sempre resolvem o problema.
Uma coisa me chamou bastante atenção. Eu não vi pessoas com nenhum tipo de deficiência atuando diretamente na sociedade; seja trabalhando, seja passeando (dando a cara pra bater na inacessibilidade da rua, como eu estava fazendo). Na minha condição, leia-se cadeira de rodas, raras exceções: alguns nos shoppings da cidade (sempre sendo empurrados em cadeiras pré-históricas), outros pedindo esmolas nos cruzamentos, entre os carros. Realidade que, confesso, me deixou um pouco triste.
Diante dessa realidade eu não passei despercebido em lugar nenhum. A presença de um jovem de aparência saudável tocando sozinho a cadeira de rodas, subindo e descendo rampas e pequenos degraus, andando entre as pessoas "normais" parecia causar um estranhamento muito grande. Aqueles olhares, indiscretos na sua maioria, poderiam causar um desconforto muito grande em alguém que acabou de se acidentar e ainda está pouco à vontade nessa situação estranha; mas no meu caso, há mais de sete anos nessa luta, já não causam nenhum incômodo.
O mais interessante foi a comoção que a minha presença causou na balada. Meu amigo Paulo e eu fomos ao Hard Rock Hotel, a princípio ficamos no mezanino onde tocava uma banda de rock muito legal. Lá eu já percebi alguns olhares de curiosidade, mas nada demais, a única que quebrou o "protocolo" foi uma moça que dançou comigo e nos apresentou suas duas amigas: "Mi nombre es Ronald, yo no hablo español muy bien, pero lo entiendo. Y podemos hablar en Inglés también". Ficamos lá, conversamos um pouco com elas e depois subimos pra baladinha que rola no 62º andar, na cobertura. Uma vista linda da cidade, toda iluminada, boa música, gente bonita... E mais olhares curiosos. Mas não demorou muito pra alguém vir falar comigo e me fazer mil perguntas: "Cuál es su nombre? De dónde eres? Qué le parece Panamá?". E eu lá, me achando a celebridade hehehehehehe. Paulo se divertia com tudo aquilo e à medida que o estado etílico ia aumentando, íamos fazendo novos amigos e meu espanhol parecia ficar cada vez mais fluente. Por que será?




No Steinbock, um pub de influência alemã onde bebemos várias... tá bom, vááááááárias cervejas de todo o mundo, os olhares de curiosidade também surgiram, mas um pouco mais discretos. A grande dificuldade de lá é que o banheiro não era adaptado e todos sabemos como cerveja é uma bebida diurética. A porta que dava para os banheiros era larga e eu chegava numa antessala de mais ou menos 1,5m x 1,5m, à minha direita o banheiro feminino, à frente o masculino, mas as portas eram muito estreitas. A solução foi deixar Paulo de guarda na porta de entrada enquanto eu fazia o cat (vulgo, xixi pelo canudinho) na antessala com a bexiga quase explodindo. Detalhe, ele não foi um segurança muito eficiente e, em determinado momento abandonou seu posto, um cara abriu a porta (eu estava de costas) e saiu constrangido pedindo desculpas. Mas a alta concentração de álcool que corria em minhas veias não me permitiu ficar envergonhado. E viva a cerveja!


Mas nem todos os lugares estavam despreparados para receber pessoas com deficiência, alguns, a exemplo da Eclusa de Miraflores, onde tem um prédio pra receber os turistas que querem conhecer o Canal do Panamá, estão muito bem preparados. E vale mesmo a pena conhecer o canal, é uma obra de engenharia impressionante. O prédio é equipado com vagas reservadas, rampas, elevador, etc. A visita completa custa US$ 8,00 e começa com um filme em 3D que conta a história do canal, da fundação aos dias de hoje. Depois os turistas se encaminham ao mirador e podem ver o mecanismo das eclusas em funcionamento, com direito àqueles navios enormes passando apertadinhos pelo canal.



Mas não dá pra esperar que tudo seja adaptado, que tenha rampas e elevadores em todo canto. No último dia resolvemos fazer um passeio de barco pelo pacífico até a ilha Taboga. Na marina foi fácil chegar até o píer onde o barco atracou, mas pra descer pro barco não teve jeito, só sendo carregado, mesmo. O problema é que sendo pego assim nos braços a gente apega fácil, né? (uuuuiiii) E no barco também não tinha moleza, como era grande até tinha um banheiro, mas quem disse que dá pro aleijadinho usar? A solução foi fazer o cat escondidinho; e com o balanço do mar, que estava um pouco agitado foi ainda mais difícil, mas tudo se resolveu.



Terminado esse passeio, foi só voltar pro hotel, tomar banho, fechar as malas e pegar o caminho de volta. O Panamá, assim como o Brasil, ainda não é muito amigável aos quebrados, malacabados pela guerra, mas existem sim alternativas. Dá pra ver que já existe uma nova consciência se formando também por lá. Muitos lugares já apresentam rampas (nem sempre bem feitas), há bastante vagas reservadas, que pra minha surpresa pareceram ser mais respeitadas que no Brasil e por aí vai. Cheguei a encontrar um banheiro adaptado fechado por dentro no shopping e tive que procurar um rapaz dos serviços gerais, que pegou um rodo passou por cima da porta e a destravou. O Panamá se revelou um ótimo destino para passeio e também para compras (de roupas e eletrônicos principalmente), as barreiras estão lá, mas não são intransponíveis. As coisas são assim: Quem quer, dá um jeito; quem não quer, dá desculpa! O passeio foi muito bom, se você quer se divertir, Panamá é o canal!

Banzo

em 26 de abril de 2012

São Paulo, 15 de abril de 2012.
Vim mais uma vez para São Paulo, dessa vez pra participar de uma corrida, uma meia maratona. Eu e mais dois amigos, Ulisses e Tarcísio. Ulisses também é cadeirante e veio correr, Tarcísio é nosso apoio, dá uma força em tudo que a gente precisa, afinal, nós não damos conta de carregar as handbikes.  Ele viaja com o nosso time de basquete em cadeira de rodas e dá todo o suporte que precisamos. Assim que eu e Ulisses decidimos participar da corrida, o convidamos pra vir com a gente dar aquela mãozinha.


A corrida foi pela manhã, o nosso transporte atrasou um pouco e acabamos chegando em casa por volta das 13h30, tomamos um banho e fomos almoçar, depois voltamos pro apartamento. Por questão de economia decidimos ficar no apartamento que eu morei por quase quatro anos em São Paulo. Assim que eu sofri o acidente e voltei pra Aracaju, nosso apartamento ficou em stand by, não sabíamos o que fazer. Minha ideia, então, era me recuperar o mais rápido possível e voltar pra minha antiga vida, retomar tudo do ponto em que parou. Não foi bem o que aconteceu. Mas o meu irmão Guilherme, que acabara de se formar em odontologia, passou em uma especialização aqui em Sampa e veio morar no apartamento. Agora, ele já terminou os estudos e acabou de voltar pra Aracaju.
Pois bem, depois do almoço estávamos cansados e fomos descansar um pouco. Fui para o meu antigo quarto, minha antiga cama. Encostei a cabeça no travesseiro e apaguei, mas o sono não durou muito. Dei-me conta que agora que o meu irmão tinha voltado pra casa, aquela era, provavelmente, minha última passagem pela minha antiga casa, onde eu fiz planos, criei expectativas e vivi alguns dos melhores anos da minha vida. Lembrei-me dos anos de faculdade, da ansiedade pra conseguir o primeiro estágio, os dias de trabalho, a correria pra entregar o TCC, as baladas, as ressacas, a festa de formatura... Seguindo essa lógica, não pude deixar de lembrar tudo que tinha planejado pra minha vida. Saudade de um tempo que não vivi.
Cara, foi foda! Eu levantava da cama, ia até a cozinha, voltava pra cama, tentava dormir e não conseguia, tentei ler o livro que tinha comprado há poucos dias, era impossível me concentrar. E o tempo foi passando, liguei a televisão antiga que ainda tinha por lá e tentei me distrair um pouco, nunca prestei tanta atenção no Domingão do Faustão como naquele dia. Mandei mensagem para os amigos de São Paulo, pelo menos aqueles que eu tinha o telefone, queria saber se a saída à noite pra rever todo mundo ia dar certo, mas acabou não rolando porque todos tinham outros compromissos. Pelo menos no sábado consegui rever alguns deles, uma pizza à noite. Ah, as pizzas de São Paulo...


Falei com Celso, que disse que ia passar por lá depois de dar uma corrida no Ibirapuera. Bibiu foi lá em casa conversar comigo, ela é a esposa do zelador, Seu Zé, e trabalhou como diarista comigo e meu irmão. Inevitavelmente, criamos um vínculo muito forte. Falei como tinha passado a tarde, ela também lamentava, dizia que tinha acostumado com a nossa presença. Minha e do meu irmão. E se perguntava como seria agora, ia sentir muita saudade. Mais tarde Celso também chegou e ficamos conversando, eu, ele e Tarcísio, também falei como tinha me sentido horas antes. Bibiu voltou lá em casa e ficou conversando com Celso mais um tempão. Ela fala pra caralho! Muito engraçado. Depois foi embora. Contei a Celso as novidades da minha vida em Aracaju, ele me falou das coisas de São Paulo e de quando planejava aparecer na terrinha.
E foi isso. Depois que ele foi embora fui arrumar as coisas pra dormir, aquela angústia já tinha passado fazia tempo e às seis e meia da manhã, a van que nos levaria ao aeroporto estaria lá na porta.
Pontualmente o transporte chegou. Tarcísio desceu as bagagens e foi arrumar as handbikes pra viagem. Eu fui o último a sair, dei uma última olhada no apartamento como se quisesse imprimir tudo aquilo na minha memória (como se precisasse...). Mais um ciclo se fecha. Por mais que eu já não morasse lá, aquele apartamento era um vínculo que eu ainda tinha com a minha antiga vida. Agora só ficam os amigos e as lembranças que levo comigo. Até breve, São Paulo.




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